Obama, Osama e a crise de hegemonia norte-americana

por Claudia Cinatti

No primeiro de maio, o presidente Obama anunciava ao mundo que um grupo de comando da elite pertencente aos Seals (literalmente ’focas’ – sigla de mar, ar, terra – por suas iniciais em inglês) da Armada norte-americana havia matado Osama Bin Laden em uma residência localizada em Abbottabad, Paquistão, uma cidade próxima a capital, sede de importantes instalações do exército local, onde se acredita que o líder da Al Qaeda viveu escondido durante mais de cinco anos. A ação militar se realizou de maneira completamente clandestina, sem sequer avisar o governo paquistanês.

As potencias européias rapidamente comemoraram o fim da busca por Bin Laden como um triunfo na ‘guerra contra o terrorismo’.

O imperialismo tentará utilizar este assassinato político, apresentado como um ato de ‘justiça’, para recompor seu poderio militar e recordar, como disse Obama em seu discurso, que os “Estados Unidos pode fazer tudo a que se proponha’, uma idéia seriamente questionada pelas desastrosas guerras e ocupações do Afeganistão e Iraque, cada vez mais impopulares. No entanto, este assassinato ocorre em um momento em que Bin Laden havia se transformado numa figura marginal e que o principal fenômeno do mundo muçulmano é o levantamento popular que já levou a queda de ditadores como Ben Ali na Tunísia e Mubarak no Egito e a intervenção imperialista na Líbia.

Para além do impacto da notícia e do êxito imediato que significa para Obama, dificilmente se transformará num triunfo estratégico que reverta a decandencia do poderio norte-americano.

O governo ainda não conseguiu articular um relatório oficial dos acontecimentos. Segundo a primeira versão, Bin Laden teria morrido vítima de um tiroteio, mas a poucas horas, a Casa Branca admitiu que estava desarmado, deixando em evidencia que foi sumariamente executado, junto com outras pessoas que se encontravam na casa. É que, como disse em uma nota o jornalista Robert Fisk, em um julgamento Bin Laden “poderia ter falado de seus contatos com a CIA durante a ocupação soviética do Afeganistão”, de suas relações com a inteligência da Arábia Saudita ou inclusive das obscuras relações nunca investigadas de agencias de segurança norte-americana e os atentados do 11 de setembro, que serviram para justificar a “guerra contra o terrorismo” e a política imperialista ofensiva de Bush.

Diferente de outros assassinatos políticos na história, como por exemplo do Che Guevara, ou a execução de Saddam Hussein, onde se mostra o corpo como evidencia, até o momento, o presidente norte-americano negou-se a mostrar fotos do cadáver de Bin Laden. Isto junto com o desaparecimento do corpo, que foi arremessado no oceano Índico pelos próprios militares norte-americanos, deixa um monte de dúvidas sobre se verdadeiramente se trata do chefe da al-Qaeda. O temor de Obama é que as imagens do cadáver alvejado não dariam certezas sobre sua identidade mas poderiam provocar uma onda de indignação e anti-norte americanismo que se expresse, por exemplo, em ações violentas no Afeganistão contra as tropas de ocupação ou em uma revolta no Paquistão.

Da maneira que se levou a frente a operação, as versões cruzadas entre distintas agencias do governo norte-americano e a falta de provas tangíveis, alimentam todo tipo de teoria conspirativa e especulações que passado o primeiro momento de euforia, poderiam começar a minar a credibilidade do discurso oficial. De fato já se começa a escutar alguns questionamentos da auto-proclamada legalidade desta operação, uma mostra da prepotência imperialista defendida por todos os poderes do estado norte-americano como uma “ação de guerra”, legal segundo a doutrina de segurança nacional adotada depois dos atentados às torres gêmeas no 11 de setembro de 2001.

Efeito reacionário

No plano interno, o assassinato de Bin Laden abriu um clima reacionário que pretende recriar o patriotismo e a ‘unidade nacional’ que havia se instalado frente ao 11 de setembro. Esse clima não só é incentivado por Obama, como também pelos principais meios corporativos que chamam desde seus editoriais a “festejar” o desaparecimento de Bin Laden. O objetivo é incentivar certo orgulho nacional no marco da crise econômica que tem golpeado seriamente os Estados Unidos, levando a taxa de desemprego a quase 10% e multiplicando a divida estatal que já causa preocupação entre as classificadoras de riscos (ver artigo)

Tal como acontece com sua escalada militar no Afeganistão, Paquistão e a incursão militar na Líbia, o presidente democrata mostrou uma vez mais que segue os passos de Bush para tratar de recompor o poderio imperialista. Obama não só reivindicou a “guerra contra o terrorismo” como também os métodos mais brutais que a acompanham como as prisões clandestinas nos países árabes ou do leste europeu onde os interrogadores profissionais da CIA e do FBI tiveram caminho livre para torturar, o mesmo que no campo de concentração de Guantánamo. O próprio diretor da CIA e futuro secretário de Defesa, Leo Panetta admitiu que quem proporcionou a informação sobre o possível esconderijo de Bin Laden foi submetido 183 vezes ao “submarino” entre outras torturas.

De imediato, Obama alavancou nas pesquisas e obrigou os republicanos, neoconservadores e inclusive o Tea Party a felicitar-lo por ter conseguido o que o próprio Bush não pôde conseguir. Até os “progressistas” aceitaram as ações terroristas do estado norte-americano com o argumento de que permitirá pôr fim à guerra no Afeganistão. Obama tentará capitalizar este momento para passar seu programa de redução do gasto público, que inclui um corte de 400.000 milhões de dólares no orçamento do Pentágono.

No entanto, parece pouco provável que o “efeito Bin Laden” se mantenha para além dos próximos meses e consiga alcançar as preocupações domésticas que foram a chave das eleições legislativas passadas e estão na base da profunda polarização política e social.

Bin Laden e a crise de hegemonia norte-americana

O anúncio do assassinato de Bin Laden tem para os Estados Unidos um grande valor simbólico ainda que dificilmente possa traduzir-se com a mesma força em suas implicações práticas, começando pelo fato de que o papel de Bin Laden no planejamento e execução das operações concretas da al-Qaeda é praticamente nulo, não só por seus quase 10 anos de isolamento, como pela própria característica da Al-Qaeda como organização descentralizada, com ramificações no Paquistão, na Península Arábica e no Magreb que funcionam com autonomia.

A operação que matou Bin Laden colocou em evidência as profundas contradições da política exterior norte-americana, agudizadas com o fracasso estratégico da guerra no Iraque. Paquistão, o principal aliado dos Estados Unidos na guerra do Afeganistão, mostrou mais uma vez que tem um jogo duplo. Apesar do governo de Alí Zardari ser profundamente pró-imperialista, e que durante uma década o país recebeu dos Estados Unidos entre 1 e 3 bilhões de dólares anuais para “combater o terrorismo”, os serviços de inteligência (ISI) e o exército mantêm uma relação histórica com os talibãs afegãos e de fato, protegeram Bin Laden. Esta relação com os talibãs tem a ver com os interesses nacionais do Paquistão que busca melhorar sua posição regional somando o Afeganistão a sua zona de influencia, e contrapor o peso da Índia, seu rival histórico.

O governo paquistanês, que vem se esforçando para demonstrar seu compromisso com a “guerra contra o terrorismo”, enfrenta agora uma situação muito difícil. No plano interno, sua colaboração com Washington que transformou o país em base de operações militares norte-americana, é profundamente impopular e alimenta as ações de diversos grupos islamistas. No plano externo, o governo de Obama está exigindo-lhe respostas sobre o papel da ISI no acobertamento de Bin Laden e várias vozes do establishment político pedem o corte da abundante ajuda econômica, vital para Zardari.

Apesar destas contradições Obama necessita da colaboração do Paquistão para sua estratégia de retirada do Afeganistão que consiste em reduzir a presença militar, colocar no eixo as ações de contra-insurgência e negociar com os setores moderados dos talibãs sua integração ao governo afegão. Este plano foi anunciado formalmente em fevereiro pela própria Hillary Clinton e já há negociações em curso. As mudanças anunciadas por Obama em seu gabinete que levariam o atual diretor da CIA como secretário de defesa e colocaria à frente da Central de Inteligência o general Peatreus, retirando-lhe do Afeganistão, seriam funcionais a esta política. Com o desaparecimento da imagem de Bin Laden, Obama espera poder ocultar a derrota que significa que os talibãs voltem ao poder depois de quase 10 anos de ocupação que custaram cerca de 1 bilhão de dólares e de milhares de baixas entre as tropas da OTAN. No entanto, não está claro que este plano vá se concretizar nem que o corrupto governo de Karzai possa se manter sem o apoio material das tropas norte-americanas.

Crises, guerras e processos revolucionários

A estratégia de Bush, continuada no essencial por Obama, de deter o declínio norte-americano através da “guerra contra o terrorismo” fracassou em restaurar a hegemonia inquestionável da que gozou os Estados Unidos, reforçada frente o desaparecimento da União Soviética. Este declínio se aprofundou com o estouro da crise econômica que deu lugar a pior recessão desde a crise da década de 1930.

Ainda que o recente assassinato de Bin Laden conjunturalmente fortaleça a posição norte-americana, a longo prazo este efeito não tem bases sólidas. A opressão imperialista e de seus aliado, o Estado de Israel com a cumplicidade de governos corruptos e autocráticos e uma aguda polarização social, hoje agravada pela crise econômica, contribuíram para o ascenso de diversas variantes islamitas no começo desta década. Essas mesmas condições são os motores profundos do processo de mobilização popular que hoje recorre no Norte da África e outros países árabes, em que a Al-Qaeda não têm influência.

Al-Qaeda é uma organização profundamente reacionária não só por seus métodos de realizar atentados como o do 11 de setembro, cujas vítimas são em sua grande maioria trabalhadores que não têm nenhuma responsabilidade pelos crimes que cometem os governos imperialistas, como também pelo seu programa de estabelecer estados teocráticos brutalmente opressivos a serviço dos interesses da elite dominante, como mostrou a estreita relação de Bin Laden com a monarquia saudita e o imperialismo norte-americano até o início da década de 1990. E logo se mostrou completamente impotente para enfrentar os governos árabes pró-norte americanos que dizia combater. Não são pequenos grupos elitistas os que podem produzir mudanças históricas e sim a ação revolucionária das massas operárias e populares que depois de décadas de restauração burguesa tem começado a voltar à cena.

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