Algumas considerações à luz do livro “Escola, Classe e Luta de Classes”, de George Snyders

por Pardal

A necessária tarefa de pensar a escola inserida na luta de classes

 

A tarefa de pensar a educação sob o prisma do marxismo é uma questão estratégica para os revolucionários: na edificação de uma sociedade de transição para a superação definitiva do capitalismo, esta questão adquire uma importância fundamental para forjar as novas gerações, encarregadas da tarefa histórica de erguer novas bases morais, intelectuais e culturais. Trata-se de fazer com que todo o proletariado e os demais setores explorados pelo capitalismo – que historicamente tiveram seu acesso negado aos bens culturais da sociedade burguesa – consigam elevar seu nível cultural a fim de acabar com todo o atraso que lhes foi imposto por séculos de exploração e opressão e, assim, possam partir do que há de mais avançado na produção cultural da própria burguesia, para superá-la e fundar as bases de uma cultura socialista (daí seu caráter transicional). Dessa enorme e imprescindível tarefa se ocuparam importantes dirigentes do partido bolchevique após a revolução de outubro, como Nadiejda Krúpskaia e Anatoli Lunatchárski.

Perante isso, cabe aos revolucionários de hoje a tarefa de pensar como, desde já, podemos combater, dentro da escola capitalista, as privações que impedem o desenvolvimento de uma nova concepção de educação, e ao mesmo tempo tornar consciente nossa atuação enquanto educadores marxistas. A estas questões elementares dedicou-se o educador francês Georges Snyders, nos anos 70, ao escrever seu livro “Escola, classe e luta de classes”.

Nesta época, poucos anos depois do grande ascenso operário (precedido pelos estudantes) que na França ficou conhecido como o “maio de 68”, a teoria marxista se encontrava em situação bastante distinta em relação à de hoje: a ideologia burguesa não podia propagar o seu atual discurso triunfalista, que ilude a milhões ao colocar o marxismo revolucionário como um projeto historicamente derrotado, identificado à burocracia dos estados operários deformados e degenerados, nos quais o capitalismo foi restaurado. De fato, naquela época em um terço do mundo a burguesia havia sido expropriada e a luta de classes convulsionava os países capitalistas com grandes combates protagonizadas pela classe operária. É neste contexto que Snyders irá escrever seu livro, e o faz reivindicando o marxismo como a perspectiva revolucionária desde onde analisar qual deve ser o papel dos educadores progressistas na escola capitalista. Pauta sua obra, como algumas das mais ricas elaborações do marxismo, em polêmica direta com cinco outros autores progressistas que analisam a educação, e na introdução explicita seus motivos para isso: por mais que tais autores coloquem uma postura crítica em relação ao modelo da escola capitalista, “eles tendem a exercer sobre seus leitores uma influência muito mais homogênea do que nos permitiria supor o exame das suas obras. O que julgamos observar nos nossos estudantes – e há vários anos – é que uns e outros, por vias diferentes, lhes transmitem a sensação de uma escola onde nada de válido se passa, a cultura aí dispensada não conteria o mínimo valor real e, desde logo, a escola deixaria de ser um local onde o combate pela democracia socialista é possível e necessário.” Assim, seu objetivo central é combater o fatalismo e o derrotismo que sente na influência da obra dos autores que examina, e que leva seus alunos de pedagogia – os futuros professores desta escola – a acreditar que não podem cumprir nenhum papel importante como revolucionários dentro da escola, como se tudo o que pudessem fazer fosse esperar a revolução para pensar no papel dos educadores; o que na prática equivale a abandonar os filhos do proletariado que sentam nos bancos escolares à sua própria sorte, à mercê da ideologia burguesa que esta instituição lhes impinge. Sintetizando, Snyders procura colocar esta obra como uma peça teórica de uma “tarefa urgente: inserir a escola na luta de classes, compreender como participa a escola na luta de classes; porque é, em última instância, o desconhecimento do que é a luta de classes que, nos nossos cinco autores, nos parece arrastar, por processos evidentemente muito diversos, àquilo que ousamos considerar como os seus desvios”.

Este papel que Snyders reserva aos revolucionários dentro da escola capitalista é fundamental: precisamos compreender que, por mais que a escola seja uma estrutura planejada pela burguesia para agir de acordo com seus próprios interesses, ela apresenta contradições que nos permitem atuar em combate à ideologia burguesa em seu próprio seio e em aliança à juventude trabalhadora e aos filhos do proletariado que se encontram nas salas de aula. Nós, educadores marxistas, não podemos simplesmente opor à escola de hoje uma escola socialista em abstrato, reservada a um futuro distante, nos negando a travar o combate desde cada sala de aula e caindo na velha armadilha de contrapor o programa mínimo ao programa máximo; devemos pensar as brechas para nossa atuação e um programa transicional entre a escola capitalista e a escola de uma sociedade sob a ditadura do proletariado.

 

A escola francesa de Snyders e a escola brasileira de hoje: diferentes sistemas com um mesmo propósito

 

Snyders parte da análise da escola francesa da década de 70, que foi ricamente estudada por quatro dos autores que examina: Bordieu-Passeron por um prisma, e Baudelot-Establet por outro. Trata-se de uma escola com grandes disparidades em relação à escola na qual atuamos. Em um país central do capitalismo como a França, com uma classe operária extremamente forte e organizada, as concessões que a burguesia foi obrigada a fazer são nítidas no sistema educacional dos anos 70, e em parte se mantém até hoje: já então o acesso à educação era praticamente universal, pelo menos formalmente, e inclusive no ensino superior; contraste gritante se pensarmos que, no Brasil, mais de trinta anos depois o governo Lula se vangloria de ter feito uma “revolução na educação” ao aumentar de 9% para 14% os jovens de 18 a 24 anos que cursam o ensino superior no país, sendo que 75% destes estão nas universidades privadas.

Contudo, estas e outras diferenças, longe de invalidar os apontamentos de Snyders e dos autores que critica, na verdade apenas reforçam sua pertinência em um país semicolonial como o Brasil. Se lá eles procuravam desmistificar a “escola única” francesa, que através de um complexo sistema meritocrático procurava valer-se de todas as desigualdades sociais para dividir as crianças proletárias e burguesas em diferentes ciclos educacionais, nas quais aquelas eram destinadas à educação mais curta, tecnicista e profissionalizante, e estas à educação de longo prazo e voltada à criação de quadros para dirigir a sociedade burguesa, aqui no Brasil a divisão é muito mais crua e explícita: no ensino básico, os filhos do proletariado estão destinados aos verdadeiros depósitos de crianças que se tornaram as escolas públicas, enquanto os filhos da burguesia são educados nos redutos da elite que são as escolas particulares, com mensalidades que podem ultrapassar R$2.500, como a da escola paulistana Vértice, que foi a primeira colocada no ranking do ENEM de 2009. No ensino superior, o quadro se inverte: o vestibular atua como um filtro social, destinando as poucas vagas das universidades públicas àqueles que podem pagar, enquanto a classe trabalhadora amarga caras mensalidades por uma educação de segunda categoria nas universidades privadas.

 

Sociedade de classes, escola de classes

 

A desmistificação de uma escola idílica feita por Snyders e pelos outros quatro autores franceses é uma lição fundamental para combater uma visão utópica recorrente com a qual os marxistas se enfrentam, e que encontramos especialmente em muitos estudantes bem intencionados nas universidades: a de que a base de uma mudança social capaz de superar o capitalismo deve ser encontrada em uma educação progressista, centrada na atuação de professores que instrumentalizariam seus alunos com um arsenal crítico e intelectual para combater as desigualdades, garantindo uma espécie de transição pacífica e gradual para a superação de nossa sociedade. Desvendar os mecanismos a partir dos quais a burguesia reserva uma educação necessariamente precária aos filhos da classe trabalhadora é essencial para mostrar como a escola, por ser um reflexo e não uma causa da sociedade de classes, é impotente para transformar a sociedade de conjunto sem que se alterem as bases das relações econômicas através da tomada do poder pela classe trabalhadora. Nas palavras de Snyders: “Para o futuro, eis-nos constrangidos a olhar os fatos frontalmente; o milagre que esperaríamos no íntimo do nosso coração: a escola como universo preservado, ilha de pureza – à porta da qual se deteriam as disparidades e as lutas sociais – esse milagre não existe, a escola faz parte do mundo.” Resgatar esta perspectiva também é essencial para combater todos os argumentos reacionários que procuram legitimar como democrático um sistema educacional meritocrático e elitista, sustentado sobre um absurdo mito de igualdade de condições entre os alunos; ou ainda para confrontar a estrutura dos cursos de licenciatura das universidades, que procuram apresentar propostas pedagógicas e didáticas em abstrato, sem nunca discutir a realidade das escolas públicas e dos professores e alunos que as frequentam, e sequer os objetivos que estão por trás da estrutura educacional e curricular do estado burguês.

Analisar a escola como uma superestrutura dentro da sociedade de classes nos permite ver o óbvio: a escola está destinada a reproduzir a divisão social do trabalho e a preparar as crianças, de acordo com sua classe social, para cumprir determinado papel dentro desta divisão. Se na França esta divisão se dava a partir dos diferentes ciclos educacionais, com distintos currículos e objetivos, como se demonstra no livro de Snyders, no Brasil a divisão ocorre entre as escolas públicas e particulares. Neste âmbito a escola cumpre um duplo papel de extrema importância: por um lado, capacita e instrumentaliza as crianças e jovens de acordo com a necessidade da sociedade burguesa, ensinando os filhos do proletariado os conhecimentos básicos necessários para cumprir sua função, e administrando os fracassos escolares de acordo com estas necessidades. A uma parte do proletariado não é necessário, de acordo com o papel social que lhe reserva a sociedade burguesa, nenhum grau de instrução formal; contudo, conforme se desenvolvem as forças produtivas e, consequentemente, se complexificam os processos envolvidos nesta produção, é necessário que os trabalhadores recebam um grau cada vez maior de educação. Alguns terão que ler e escrever, outros precisarão de conhecimentos técnicos sobre as máquinas que irão operar nas indústrias; assim, é necessário à burguesia universalizar o acesso à educação e dividir o grau de instrução que cada camada do proletariado receberá de acordo com as necessidades impostas pela divisão social do trabalho e pelos processos produtivos. É o que se faz, por exemplo, através das escolas técnicas, que diante do chamado “apagão de mão de obra” para as indústrias que ocorre hoje no Brasil (fruto direto de nosso desenvolvimento desigual e combinado), vêm sendo alardeada pelos candidatos à presidência como uma solução para a educação pública.

Este aumento da instrução da classe trabalhadora, no entanto, não é um processo isento de contradições para a classe dominante: a mesma educação que é necessário oferecer ao proletariado para que este possa vender sua força de trabalho, pode servir também como um instrumento de conscientização sobre seu lugar social, e conseqüentemente pode ajudar em sua luta e organização contra este sistema de exploração. E esta é uma das brechas em que os revolucionários devem atuar, potencializando esta possibilidade de apropriação do arsenal intelectual e cultural da burguesia por parte da classe trabalhadora, para transformá-lo em uma arma para combater a ideologia e a dominação sobre esta mesma classe.

Pelo lado ideológico, a escola tem um papel não menos importante: acomodar desde cedo os trabalhadores a seu papel de explorados na sociedade, impregná-los dos valores da burguesia para impedir que se organizem politicamente contra o sistema que os explora cotidianamente, encher suas cabeças de preconceitos e mistificações. Por isso é necessário, por exemplo, o mito da meritocracia, para que as crianças enxerguem a si próprias como responsáveis pelo papel social que irão cumprir a partir de seus fracassos escolares; que a partir disto legitimem a falsificação de que alguém é rico porque estudou e se esforçou, e não por uma divisão que já estava estabelecida muito antes e muito além dos bancos escolares. Também é aí que se habitua as crianças a estarem separadas em grupos de acordo com sua classe social. É considerando este importante papel que cumpre a escola para a burguesia que diz Snyders: “É precisamente por causa da extrema importância da instituição escolar nos Estados modernos que a ligação entre o aparelho político e o ensino é imensamente forte. Uma das contradições da burguesia é não poder concordar abertamente com isso”. E não pode concordar com isso porque precisa reforçar o mito de uma escola “neutra”, supostamente acima das contradições sociais.

 

Onde se situa o combate dos revolucionários dentro da escola de classes?

 

Para combater a raiz do problema que vê nos cinco autores que critica, Snyders se vale da análise marxista e fundamentalmente de situar a escola e sua função dentro de um contexto muito maior do que ela própria e do qual ela é parte, que é o da luta de classes. Por caminhos diferentes, tanto Bordieu-Passeron quanto Baudelot-Establet e Ilich incorrem no erro que Snyders caracteriza como “desconhecimento da luta de classes”, ou seja, ignorar o papel fundamental que esta deve exercer impreterivelmente no processo de transformação radical da escola.

A postura de Ilich é a que mais se distancia do marxismo, e nós frequentemente encontramos concepções semelhantes em educadores autonomistas ou anarquistas que, longe de enxergar a superação da sociedade capitalista e da própria sociedade de classes como um processo dialético, em que o proletariado deverá necessariamente se apropriar de elementos já existentes na sociedade para instituir sua ditadura e, consequentemente, avançar rumo a uma sociedade sem classes, o enxergam em uma chave utópica e maniqueísta, em que renegam de forma unilateral todos os elementos que caracterizam como autoritários e atrelados à burguesia, sem enxergar nestes nenhum aspecto positivo que possa ser apropriado pelos revolucionários. Assim faz Ilich em relação à escola, enxergando nela somente um instrumento de opressão das classes dominantes; paralelamente, sua incapacidade de enxergar o quadro mais amplo da sociedade de classes, e a escola como instituição constituinte desta, faz com que não a veja como uma reprodutora de privilégios, mas sim como criadora destes. Ilich prega o fim da escola e chega a ir além, colocando-se contra o que ele chama de “cultura do perito”, em que a concretização do privilégio se daria no mesmo momento em que passa a existir um especialista em determinada área de conhecimento, e que assim institui uma autoridade sobre o “homem vulgar”; aproxima-se aí cada vez mais do anarcoprimitivismo, ou do movimento ludista, nos quais se enxerga a própria cultura e a tecnologia, e não o uso privado que delas se faz graças à apropriação da riqueza social, como os culpados pela instituição de privilégios e desigualdades. Radicalmente distinta é a visão do marxismo, que percebe justamente no avanço das forças produtivas a possibilidade de superação do capitalismo; ou seja, partir do que há de mais avançado no desenvolvimento humano hoje – e isto também se aplica no campo da cultura, arte e educação -, para conseguir organizar uma sociedade distinta, sem apropriação privada da riqueza.

Bordieu-Passeron não chegam ao mesmo extremo que Ilich, mas Snyders vê a ponte entre as duas concepções no fato de que o nó central da sociedade de classes, que é a detenção do capital e dos meios de produção por uma classe servindo-se da exploração de outras, é substituído por uma visão centrada na questão da educação e da cultura. No caso de Bordieu-Passeron, este deslocamento se dá através do conceito de capital cultural, que ganha importância fundamental na sua análise e passa a ocupar o papel central. Um dos pontos fundamentais de Snyders é colocar a escola em seu devido lugar, sem tornar seu papel maior do que de fato é na perpetuação da exploração e da sociedade de classes e, desta forma, conseguir enxergar de forma nítida até que ponto os revolucionários podem se valer de uma atuação dentro desta estrutura para avançar posições em seu combate, e enxergar também o limite desta atuação, que não pode prescindir em nenhum momento da organização da vanguarda proletária em um partido que lute pela tomada do poder, pois apenas isto pode mudar a escola estruturalmente e permitir o acesso da classe trabalhadora ao que há de mais avançado no patrimônio cultural e intelectual da humanidade.

Para combater concepções como as de Ilich e Bordieu-Passeron, que vêem na escola apenas a reação e um instrumento monolítico e impenetrável a serviço da burguesia, Snyders recorre aos próprios pensadores burgueses do século XIX, que em grande número se pronunciaram contra a escolarização dos operários por verem nesta um grande risco. É o caso de Jules Simon, que defende que apenas uma pequena elite de trabalhadores deve ser formada em estabelecimentos técnicos e, quanto ao restante do proletariado, deve ir cedo para ocupar seus postos de trabalho, pois a escola não é o meio adequado para formar a convicção necessária de que “a vida é um conjunto de sofrimentos e de prazeres, onde os sofrimentos têm a maior parte.” Pelo mesmo caminho envereda P. Bourget, que vê a escola como um lugar em que se “despertam apetites nos jovens que a realidade não pode satisfazer” e, portanto, afirma que a escola ensina a “condenar em bloco o estado social” e também que “é ao sair do liceu que aparece primeiro o deslocado, depois o revolucionário”. E o mais célebre pensador burguês invocado por Snyders é Thiers, o carrasco da Comuna de Paris, que sustenta que “na generalidade, são os operários mais instruídos e que mais ganham os que ao mesmo tempo se mostram mais desregrados nos seus costumes e mais perigosos para a paz pública”. Assim, Snyders mostra que os próprios intelectuais da burguesia reconhecem que a instrução formal dos trabalhadores representa um perigo para a dominação ideológica da burguesia.

Pelo lado dos revolucionários, Snyders cita Engels, quando este diz que “A burguesia tem pouco a esperar e muito a temer da formação intelectual dos operários” e Lênin, que afirma que “concorda com o ministro quando este considera os operários como pólvora, a sabedoria e a instrução como a faísca. O ministro está convencido de que se a faísca salta sobre a pólvora, a explosão atingirá acima de tudo o governo.” Contudo, mais do que as citações evocadas por Snyders, o argumento que parece mais convincente são os fatos concretos, que ele surpreendentemente não chega a mencionar em seu livro, como o imponente levante estudantil ocorrido poucos anos antes na própria França, que precedeu e que se colocou ao lado dos trabalhadores em luta, compreendendo inclusive a importância da hegemonia proletária no movimento revolucionário ao colocar palavras de ordem como “Trabalhadores, tomem das nossas frágeis mãos as nossas bandeiras de luta”. Episódios assim, freqüentes na história (e que a escola burguesa trata de apagar de seus currículos), mostram que os estudantes, inclusive frações importantes daqueles provenientes da pequena-burguesia, podem cumprir um papel decisivo na luta de classes. É nestas camadas sociais, também, que necesariamente serão recrutados muitos dos quadros de um partido revolucionário.

É por isso que Snyders afirma que “A escola nem é um local de vitória, de libertação já assegurada, nem o órgão votado à repressão, o instrumento essencial da reprodução; segundo as relações de força, acompanhando o momento histórico, ela é uma instabilidade mais ou menos aberta à nossa ação.” Assim, cabe aos revolucionários atuar em cada brecha que se abra dentro deste campo de combate, seja lutando por melhorias pontuais que permitam ao proletariado um maior acesso à escolarização – mesmo dentro da escola burguesa – tais como as lutas por melhores remunerações para os professores, menos alunos por sala de aula, melhor infraestrutura nas escolas; como também fincar raízes em um combate mais profundo e estratégico, que parta de compreender a fundo a estrutura escolar capitalista com vista a elaborar um programa de educação socialista e lutar pela transformação radical da escola, que só poderá ser fruto de uma transformação radical da sociedade.

 

Retomando as lições da história: a escola politécnica e as escolas dos estados operários

 

Procurando aprofundar os aspectos positivos e negativos da escola, as brechas que se abrem para os revolucionários dentro desta, e sobre quais aspectos podemos progredir e avançar posições dentro da escola burguesa, Snyders trata de diferentes aspectos relacionados a esta instituição, como o papel da cultura e dos currículos em cada escola. Não nos deteremos aqui em cada ponto tratado pelo autor, mas chamamos a atenção para um conceito essencial que retoma de Marx, e que baliza as reflexões sobre a educação de todos os teóricos marxistas que se debruçaram sobre este tema, com destaque para Gramsci, que é o conceito de escola politécnica. Esta concepção de escola se contrapõe à divisão do trabalho que impera na sociedade capitalista. Assim, desde os primeiros fundamentos da educação escolar, a educação politécnica integra o conhecimento ao trabalho produtivo, rompendo com a alienação do trabalho e com a divisão entre trabalho manual e intelectual.

A partir deste fundamento, Snyders analisa brevemente algumas experiências de educação nos estados operários da época para diagnosticar quais foram os avanços fundamentais em relação à escola dos estados capitalistas. O primeiro ponto elementar apontado por Snyders é a enorme disparidade em termos de acesso à educação. Quanto a isso, apresenta alguns números bastante significativos. Por exemplo, a porcentagem de estudantes do ensino superior provenientes de famílias operárias em 1965: nos estados capitalistas: França 9,5%; Itália, 15,3%; Alemanha Ocidental, 16,5%; nos estados operários: Romênia, 32%; Polônia, 35%; Checoslováquia, 38%. É importante notar que a comparação aí se dá entre países capitalistas de grande desenvolvimento industrial e estados operários com uma economia fundamentalmente atrasada. Assim, com estes e outros números Snyders demonstra que a planificação de uma economia que se volta para as necessidades dos trabalhadores e dos camponeses apresenta resultados significativos na universalização da educação.

Referindo-se ao aspecto mais curricular e estrutural das escolas, sob o prisma da politecnia, é feita uma breve e superficial análise de dois tipos diferentes de escolas em estados operários: a da China, por um lado, e as da RDA (República Democrática Alemã, mais conhecida como Alemanha Oriental) e URSS, por outro. As críticas, Snyders as reserva por inteiro à escola chinesa, por considerar que esta se afasta diametralmente da escola politécnica marxista. O elemento central desta crítica se expressa na seguinte colocação: “Aqui tudo se passa, tudo nos é apresentado como se os operários-camponeses possuíssem espontaneamente, pela sua própria existência, todas as qualidades, conhecimentos e virtudes necessários à construção do socialismo. O intelectual é reeducado, para não dizer regenerado, pelo seu contato com o povo; mas não terá ele nada a lhe oferecer em troca?”. A crítica desenvolve-se com a apreciação de que na China o trabalho manual é idealizado como portador de grandes “virtudes”: é ele, por si mesmo, que pode educar, ensinar o socialismo. É desmerecida qualquer importância à teoria, exceto ao livro vermelho de Mão Tse-Tung, encarado quase como um grande guia messiânico, e no qual se desenvolvem, segundo Snyders, “princípios extremamente genéricos” que de acordo com sua utilização deixam de ter “qualquer característica, quer dialética, quer marxista”. Assim, ao contrário do que Marx vislumbrava como uma educação politécnica que aponta para o fim da divisão entre trabalho intelectual e manual, o que vemos na escola maoísta é uma espécie de supressão da teoria e hipervalorização e glorificação do trabalho manual.

Este modelo de escola evidentemente coincide com uma necessidade premente por parte da casta dirigente do PCCh, de uma expropriação política das massas em favor da burocracia dirigente, pois, como diz Snyders, “A conseqüência disto é um nível muito rudimentar de pensamento teórico, de pensamento político; e não basta dizer que a escola se satisfaz com isso, ela o apresenta como a própria finalidade a ser atingida.”. Em nenhum momento isto aponta para a superação entre os dois tipos de trabalho, mas justamente para uma perpetuação indefinida de sua divisão, em que o “trabalho intelectual” certamente estará reservado a uma burocracia partidária que se eleva sobre as massas. Contudo, esta evidente motivação política por parte da burocracia do PCCh em manter a escola desta forma está completamente ausente nas considerações de Snyders, tratando desta concepção de educação como um “equívoco” de “(…) um regime convencido de que só minimizando a elaboração teórica pode participar na vida das massas (…)”

No caso da escola da URSS e RDA, o autor defende que existe um ensino que “permite-nos distinguir o que pode ser uma escola socialista politécnica”. De fato, podemos perceber que a planificação da economia, a universalização da educação, o fim da propriedade privada dos meios de produção e a expropriação política da burguesia criaram um terreno fértil em que se impulsionaram mudanças substanciais na educação. Diferente da China, a RDA e a URSS já contavam com um alto nível de desenvolvimento industrial, e os princípios gerais da produção passam a ser incorporados no processo educativo, bem como há uma revalorização do ensino técnico, que ganha um caráter distinto daquele de mera formação de mão-de-obra que possui nos países capitalistas (e que atualmente se torna cada vez mais tecnicizante e distante de compreender os processos produtivos como um todo).

Contudo, a crítica que fizemos ao fato de que Snyders não considerava os propósitos políticos da burocracia do PCCh na China, aqui se manifesta novamente de forma gritante, e demonstra o principal problema do livro de Snyders, que contradiz grande parte do que ele próprio afirma em muitos momentos a respeito do que deve ser a escola politécnica. Há um pernicioso embelezamento dos regimes burocráticos que vigoravam nestes estados, que aparece através da análise da educação nestes países, poupando-a das imprescindíveis críticas. Ora, se o princípio que rege a educação politécnica é a superação da divisão entre trabalho manual e intelectual, isto implica em uma necessária superação da alienação do trabalho. Snyders foca somente o aspecto da técnica e do conhecimento científico; é, de fato, um ponto fundamental para romper com a alienação da classe trabalhadora a apropriação destes princípios. Mas ainda mais fundamental é o controle operário sobre a produção e, enfim, sobre todos os aspectos da organização social. Isto faz com que a escola deva ser um espaço privilegiado de formação e atuação política da juventude do estado operário que, como define Engels, “crescerá nas novas condições de liberdade social e que poderá descartar todo o lixo do estatismo”. E Snyders não analisa como o processo de burocratização da URSS (e do estado operário da RDA, que já nasce burocratizado) levou à expropriação política da juventude por parte da burocracia, e como isto se reflete profundamente na estrutura escolar.

Sobre este aspecto, encontramos uma rica contribuição na obra “A revolução traída”, escrita por Leon Trotsky mais de quarenta anos antes do livro de Snyders e que aborda o processo de burocratização da URSS sob diversos prismas, inclusive o da educação e da juventude. O problema essencial da educação soviética é apresentado por Trotsky, que diz que “essa nova geração [nascida após a revolução de Outubro] não está se formando ‘nas condições de liberdade social’ , como pensava Engels, senão que sob intolerável e crescente opressão da camada dirigente composta pelos mesmos que – segundo a ficção oficial – fizeram a grande Revolução. Na fábrica, no Kolkhoze, na caserna, na universidade, na escola e até no jardim-de-infância ou mesmo na creche, as principais virtudes são a fidelidade ao líder e a obediência sem discussão. Muitos dos modelos pedagógicos dos últimos tempos poderiam ter sido copiados de Göebbels se este mesmo não os tivesse copiado, em grande parte, dos colaboradores de Stálin”

Assim, o importante aspecto progressista apontado por Snyders na tentativa de uma superação entre a divisão do trabalho e a introdução dos princípios científicos e técnicos que regem a produção no ambiente escolar parecem empalidecer diante de tamanha repressão à formação e a liberdade política da juventude. Como aponta Trotsky “O pensamento e o caráter independentes não podem se desenvolver sem crítica. Pelo contrário, a mais elementar possibilidade de troca de idéias, de se enganar, de verificar e retificar erros, próprios e dos outros, é recusada à juventude soviética. Todas as questões, mesmo as que lhe dizem respeito, são resolvidas sem a sua participação.” Mesmo apropriando-se detalhadamente das técnicas produtivas, sem a liberdade de desenvolver-se politicamente, como poderá esta geração se formar para dirigir politicamente a sociedade e usar a tecnologia produtiva e a distribuição da riqueza social para “descartar o lixo do estatismo”? Esta situação se explica pelo fato de que o objetivo político da burocracia, muito distante daquele do marxismo revolucionário, é fortalecer cada vez mais o estado, que é o responsável por alimentar esta camada parasitária que se nutre do trabalho do proletariado e também por reprimir qualquer tentativa de oposição capaz de organizar uma revolução política que possa devolver aos trabalhadores o controle da sociedade.

Trotsky aponta que “na técnica, nas ciências, na literatura, nos esportes ou no xadrez, a juventude está ganhando pontos para uma grande ação futura.”, questão que se demonstrou vigorosamente com todo o avanço soviético nestes campos, que em poucas décadas conseguiu colocar uma economia atrasada em pé de igualdade para uma competição encarniçada com a maior potência capitalista da época, os EUA. Muito diferente, no entanto, é o desenvolvimento político desta geração, reprimida desde os bancos escolares. Na época de Snyders, esta juventude já se enveredou por um dos três caminhos apontados por Trotsky: “1) assimilar-se à burocracia e fazer carreira; 2) submeter-se em silêncio, absorvendo-se no trabalho econômico ou científico, ou na pequenez de sua vida privada; 3) passar à clandestinidade, aprender a combater e temperar-se para o futuro”. A pequena parcela que seguiu a primeira opção foi a responsável por dar continuidade à política repressiva do regime stalinista, inclusive na escola, que chegou à época de Snyders nos mesmos moldes. A segunda opção, contudo, mostrou também os restritos limites impostos pela doutrina oficial da burocracia: grande parte dos maiores cientistas e estudiosos do período soviético, como Vygotsky e Bakhtin, foram perseguidos pela burocracia e tiveram suas obras banidas pelo index stalinista.

A necessidade por parte da burocracia de amordaçar a juventude, – e para isto valeu-se do repressivo regime escolar soviético, tal como a burguesia se vale do repressivo regime escolar capitalista – consiste no fato de que, como aponta Trotsky, “Qualquer partido revolucionário encontra apoio, em primeiro lugar, na geração jovem da classe ascendente.”. Assim, se para a edificação de uma sociedade socialista uma das tarefas primordiais do partido revolucionário seria colocar a ditadura do proletariado a serviço de educar e instruir a nova geração, fornecendo-lhe toda a liberdade e autonomia política, – e para isto a escola seria um dos instrumentos mais valiosos – para a burocracia o caminho necessário era justamente o oposto: sufocar-lhe toda a voz e toda a iniciativa política. Diante deste quadro calamitoso, torna-se absurdamente omissa a voz de Snyders, que esconde os crimes da burocracia e falsifica os fatos dizendo apenas que “ninguém sustentará que a escola na RDA ou na URSS tenha ultrapassado todas as dificuldades. Seria arriscado afirmar que o politecnismo tenha conseguido vencer todas as reticências da intelligentsia frente ao trabalho operário; nem que a margem de autonomia da própria juventude tenha sido sempre salvaguardada. O problema foi inúmeras vezes examinado pela imprensa destes países, o que ao mesmo tempo comprova que não foi resolvido e que se procura atentamente solucioná-lo.”

 

Sobre os revolucionários na nossa escola

 

Mesmo diante de alguns problemas sérios no texto de Snyders, sobretudo no que se refere a seu embelezamento da burocracia, seu livro trás uma reflexão marxista profunda sobre a educação, que é um sopro de ar fresco diante do quadro embolorado que se apresenta hoje na esquerda brasileira, inclusive a que reivindica o marxismo. Há longos anos vivemos sob o nefasto auspício, no campo da esquerda, de um programa para a educação de caráter reformista, de viés nacional-desenvolvimentista, elaborado sobretudo no interior do PT e, quando este debanda para o neoliberalismo, herdado pelo P-SOL, que não faz nenhuma modificação substancial neste. A principal referência teórica é Paulo Freire, que tenta cunhar um projeto de educação popular profundamente influenciado pelo cristianismo e que apresenta uma visão bastante paternalista do campesinato e da classe trabalhadora, não chegando a apontar nenhuma concepção pedagógica que vá para além dos marcos do capitalismo.

Mais recentemente, os governos brasileiros seguiram à risca os planos educacionais dos órgãos financeiros internacionais, consolidados no consenso de Washington, e transformaram as escolas em verdadeiros depósitos de gente. Em São Paulo, especificamente, mais de quinze anos de tucanato implementaram reformas calamitosas: aprovação automática, aumento do número de alunos por sala, degradação da infraestrutura escolar, implementação do bônus por mérito, arrocho salarial por mais de uma década, material didático obrigatório de péssima qualidade, inserção cada vez maior da polícia militar dentro das escolas, entre outras. Tudo isto não poderia ser levado a cabo com tanto sucesso se a APEOESP – sindicato que representa os professores da educação básica do estado de São Paulo e que possui o maior em número de filiados na América Latina – não contasse com uma direção pelega ligada à CUT e ao PT, bastante conivente com este processo e que só levanta greves para desgastar seus oponentes em período eleitoral, sempre procurando refreá-las antes que possam romper este marco restrito e fugir de seu controle. O maior setor de oposição, dirigido pelo PSTU, também se mostra bastante adaptado a esta direção, como se demonstrou na última greve, em que não procurou sequer organizar uma alternativa de direção da greve em oposição à política da direção majoritária do sindicato.

A categoria dos professores, ao sair em greve no ano passado, mostrou seu potencial explosivo. Atos com cerca de 50.000 professores tomaram a Rua da Consolação em toda a sua extensão, se enfrentaram com a PM às portas do palácio do governo, resistiram a mais de um mês contra a política nefasta de sua direção e contra uma mídia que procurava a todo o custo esconder a mobilização. Nós da LER-QI interviemos neste processo junto a professores independentes do Movimento Classe Contra Classe; participamos e organizamos blocos estudantis de apoio na USP, PUC e Fundação Santo André; levantamos um programa contra a precarização do trabalho, que hoje atinge 47% dos professores que são considerados “temporários”, e, a partir disto, conseguimos organizar blocos com mais de cem professores nos atos de rua.

Para colocarmos de pé um setor de professores combativos, classistas e revolucionários, é necessário combinar a atuação contra a precarização do trabalho dos professores a uma atuação política cotidiana nas escolas, que se coloque a refletir a educação sob a ótica do marxismo e lute para colocar as reivindicações dos professores, tanto salariais como pedagógicas, no marco de grandes batalhas de classe. Como pudemos ver na última greve, não são apenas os baixos salários que afetam a vida dos professores, mas também as péssimas condições que têm para exercer sua profissão. Muitos são os que, em decorrência disso, contraem doenças e são aposentados precocemente. Desiludidos com as sucessivas traições da direção da APEOESP, não enxergam na organização sindical uma perspectiva para lutar por suas reivindicações.

Precisamos romper com esta situação construindo uma forte corrente de professores que, desde cada escola e cada sala de aula, em aliança com os estudantes, os pais e as comunidades escolares, possa reorganizar esta categoria na perspectiva de repensar a educação e, para que seja possível transformá-la, construa alianças com outros setores da classe trabalhadora. A reflexão sobre o que deve ser uma escola para além do capitalismo não é uma tarefa somente para as gerações futuras, pois as nossas concepções sobre a educação devem ser criadas e transformadas desde já, a partir de cada enfrentamento cotidiano nas salas de aula. Se há algo que devemos aprender com o livro de Snyders, é que o combate dos revolucionários dentro da escola não pode esperar um “futuro socialista”.

 

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