O que é imprescindível para vitória? Uma reflexão sobre um importante debate entre ativistas de esquerda e uma polêmica inicial com João Bernardo

Por João de Regina

 

Da esqueda para direita: Mario (LER-QI), Denis (MTD), João Bernardo e Ari (MST)

Na noite do dia nove de agosto na Unicamp ocorreu um interessante ato-debate entre ativistas de esquerda. O debate marcou o inicio de uma ocupação de uma antiga cantina do Instituto de artes e tinha como tema “Formas de mobilizações e métodos de resistência”. No debate estavam presentes Ari do MST, João Bernardo do Coletivo Passa Palavra, Denis do MTD e Mário da Ler-qi. Os debatedores expressavam uma composição bem heterogênea de ativistas em todo ato.

Consideramos muito positiva essa iniciativa que possibilitou um importante debate entre lutadores de esquerda sobre suas diferentes concepções sobre métodos e formas de lutas. Poderíamos utilizar mais de um artigo para discutir o que pensamos de cada uma das posições apresentadas, porém especificamente aqui, gostaríamos de nos centrar em um debate sobre nossas diferenças com as visões apresentadas por João Bernardo.

 

Ontem dirigentes de esquerda, hoje do capital!

 

João Bernardo apresentou a reflexão sobre o movimento que existe dentro do capitalismo de dirigentes da (chamada por ele) “ultra-esquerda” se tornarem grandes defensores do capital, mostrou que isso não é uma particularidade do Brasil; que é uma característica de nosso modo de produção já assinalado por Marx: que o poder da classe dominante está diretamente ligado com sua capacidade de ganhar para seu lado os melhores quadros da classe adversária.

Importantíssimo debate apresentado por João Bernardo! Ainda mais em um país onde uma referência sindical de grandes dimensões como Lula, não apenas se tornou presidente como um dos melhores quadros da burguesia, ou seja, um sujeito político com as melhores características e capacidades para manter a exploração capitalista sobre os trabalhadores. E um partido que, apesar de contradições, surge de importantes características progressivas da classe operária brasileira, se tornou um partido burguês de grande importância para a contenção das massas.

Se é uma grande verdade que esse movimento é uma tendência do capitalismo, não é igualmente certo que ele ocorra por fora das determinações históricas. Generalizar de forma abstrata as tendências do modo de produção capitalista tende a transformar o marxismo em um esquema e não em um método vivo capaz de analisar as contradições da história. A criação de dirigentes burgueses dentro do meio operário não acontece ausente das pressões objetivas, e das características subjetivas das distintas forças políticas. Portanto ao analisar, por exemplo, o fortalecimento do PT enquanto um partido da ordem não basta apenas apontar que isto “ocorreu no Brasil como acontece em todo o mundo, porque assim é o capitalismo!” É fundamental determinar as tendências objetivas e analisar as especificidades subjetivas dos sujeitos históricos envolvidos para se explicar profundamente esse fenômeno. Pois ele não é um fruto de tendências abstratas, mas sim de duros acontecimentos históricos, de lutas entre distintas classes e frações de classes com distintas posições e atuações.

Da forma como João Bernardo apresentou este debate esse movimento parece um automatismo do capital quase que infalível, e assim pouco contribui para refletirmos que postura à esquerda e os marxistas devem ter para combater este fenômeno. Neste sentido, a fala deste intelectual mais serviu para desmoralizar os militantes ali presentes do que a outra coisa. O posicionamento de João Bernardo acabou expressando um pessimismo que de forma alguma fazemos coro. No debate, ele praticamente afirmou: “Vocês militantes de esquerda hoje, gestores do capital amanhã”.

Mesmo que isso de fato seja uma possibilidade, o que nos importa é nos armarmos frente às tendências objetivas que poderão causar isso, e nos prepararmos para perceber, com maior velocidade possível, os que passam para o outro lado e combate-los com igual precisão, além de permanentemente lutar contra as estratégias conciliadoras para que a classe operária saiba não confiar em arrivistas e traidores.

 

Um rápido aprofundamento no pensamento de João Bernardo.

Duas classes dominantes? [1]

 

Ao indagar aos presentes quem lia as pesquisas de esquerda sobre a classe operária produzida nas universidades, alguém respondeu: “A burguesia!”. João Bernardo discordou com uma frase no mínimo curiosa: “Isso não existe mais!” E respondeu: “os administradores de empresa e a polícia”.

De fato não é uma inverdade que os poucos nichos que a universidade burguesa permite para o pensamento marxista não é exatamente uma concessão. Sem tempo morto a burocracia acadêmica – não nos enganemos, que está intimamente ligada ao capital – faz de tudo para isolar esse conhecimento dos trabalhadores e apropria-lo aos interesses capitalistas, e que, de fato, os cães de guarda da propriedade privada e os tecnocratas capitalistas se utilizam desse conhecimento[2]. Na Unicamp, exemplo importante disto são as atuais políticas para o AEL[3], que tentam distanciá-lo cada vez mais do movimento operário para se tornar um arquivo da Unicamp, ou seja, da burocracia acadêmica. Política essa impulsionada, inclusive, com aval de intelectuais ligados à esquerda[4]. Porém é a afirmação curiosa de que a burguesia não existe mais que queremos discutir.

A hipérbole usada por esse pensador autodidata expressa sua visão de que no capitalismo existem duas classes dominantes e que a burguesia nem é a principal. Para João Bernardo no processo de constituição do capitalismo havia duas classes com interesses de exploração do proletariado: A burguesia e os gestores. Em um primeiro momento a burguesia seria a classe mais destacada para o capitalismo. Porém conforme este se torna mais complexo, e começa a se utilizar mais da extração de mais valia relativa, por distintas vias, a burguesia começa a se tornar supérflua e os gestores protagonista.A visão de João Bernardo chega a ponto de afirmar, que por vias distintas países como Estados Unidos e União Soviética chegaram a um mesmo fim: reduzir ao mínimo o papel da burguesia e dar poder hegemônico aos gestores. Dessa forma a União Soviética seria um país capitalista onde o poder estaria na mão dos gestores e a burguesia haveria sido fisicamente suprimida no processo revolucionário de 1917 [5]. E nos Estados Unidos, através da complexificação e expansão do capital, as grandes corporações e especulações financeiras fizeram que a própria burguesia se transformasse em gestores.

 

Que orientação estratégica tem João Bernardo?

 

A teoria de João Bernardo de uma burguesia superfula e de gestores como classe separada, vem no sentido de fortalecer sua abstenção em se discutir uma transição do modo de produção capitalista para um comunista. A idéia de uma luta pelo poder político contra a burguesia seria, então, uma estratégia equivocada, já que o real poder do capital está diluído no poder dos gestores. Estes exerceriam seu poder não através da noção clássica de estado, este tipo de poder é respectivo à burguesia, mas sim de um estado mais amplo, que está dentro das fábricas e das corporações. Assim a luta que tem como meta a destruição do poder político burguês e a garantia do poder político do proletariado não seria tão efetiva, já que não resolveria o poder pilar do capital que é o dos gestores. João Bernardo trata de forma separada algo que é, na verdade, um mesmo fenômeno: a burguesia através de seu poder político garantindo a organização, através do recrutamento de quadros e especialista de distintas classes, da sociedade de acordo com seus interesses.

Acontece que com essa teoria João Bernardo não vai além da estratégia anarquista, da derrubada do capitalismo de forma espontânea, diluída, contagiosa e… também não muito clara. No livro “Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista”, obra inaugural de João Bernardo em que apresenta sua ruptura com o leninismo e o chamado por ele de “marxismo ortodoxo”, existe uma defesa de que sua visão ainda estaria no campo do marxismo e não do anarquismo porque para ele o primeiro dava prioridade fundamental de análise ao tema da exploração enquanto o segundo para o da opressão. Como João Bernardo via que as distintas formas de opressão no modo de produção atual se combinam entre si e fazem parte da totalidade da exploração, este compreendia sua teoria como ainda dentro do campo marxista.

Ainda que possamos discutir futuramente as distinções teóricas fundamentais entre o marxismo e o anarquismo, entendemos que essa relutância para se reivindicar dentro do campo teórico marxista significa uma forma de defender a estratégia-política anarquista, porém sem capitular a miséria do debate teórico que essa tendência oferece.

A teoria das duas classes capitalistas, assim como outras concepções defendidas por este autor[6], apenas consegue chegar a uma conclusão estratégica: de que a atividade das massas contra os capitalistas, por si só, é o suficiente para derrotar o capitalismo; de que não é necessária uma condução consciente do processo revolucionário para leva-lo a vitória.

Essa visão tipicamente anarquista, independente dos recursos teóricos utilizados para sustenta-la, tende, quando confrontada contra a subjetividade das massas e suas inúmeras metamorfoses durante a história, lançar o triunfo da classe operária sobre o capital para um futuro distante. Quem subestima o elemento consciente do trabalho revolucionário tende a ignorar os elementos objetivos de diversos e longos períodos da história que pressionam a consciência e a atividade espontânea da classe operária a um nível baixo. Tende, por outro lado, a cultuar de forma unilateral os momentos gloriosos da subjetividade das massas, onde espontaneamente a classe ensina e inova, porém, sem discutir suas particularidades e sem se dar a tarefa de refletir a forma para desenvolver ainda mais esses momentos. Para nós a tarefa é, em um árduo trabalho, se esforçar para combater os elementos objetivos que atrasam a atividade e consciência da classe; contribuir para desenvolver os elementos subjetivos progressistas dela; encontrar os processos mais avançados que setores dos trabalhadores protagonizam e difundi-los como exemplo; tirar ensinamentos de suas lutas, principalmente de suas derrotas, para construir uma sólida estratégia e organização, que permita que o proletariado não precise voltar do zero a cada batalha perdida. As estratégias anarquizantes, ao contrário, em uma lei abstrata e geral dizem “a classe autonomamente pode, não sei quando e nem ao certo como, dar conta do recado“.

Outro grande problema dessa visão é pouco explicar as derrotas dos momentos revolucionários e pouco contribuir para combater os inimigos da classe operária, e suas direções conciliadoras, traidoras e etc. Tende a apenas apontá-los e denunciá-los de forma livresca e esperar que a classe por si só os supere.

 

Uma entrevista ilustrativa

 

Gostaríamos de discutir dois trechos de uma entrevista de João Bernardo ao Jornal Ruptura[7]. O primeiro é que ao ser indagado de que ao lerem seu livro Dialético da Prática e da Ideologia viam de forma pouco clara a questão de como “surge a mudança” e o papel da consciência respondeu resgatando um dialogo entre ativista que participaram dos movimentos de autogestão em Portugal, e concluiu assim: “Não se pode pensar que um movimento autônomo surge por uma ação tão planejada assim, porque ele é autônomo mesmo, ele nos ultrapassa.”

Se João Bernardo afirmasse com isso a importância do elemento espontâneo na ação revolucionária e discutisse como mesmo após momentos tortuosos na história ele sempre voltou a aparecer e discutisse a formas para levar esse movimento espontâneo à vitória, saudaríamos muito mais esse debate. Porém não é esse o sentido da resposta. Ao afirmar que quando reflete sobre o fato da classe operária portuguesa ter produzido um movimento (chamado por ele de) “autônomo”[8], mesmo depois de um duro período repressivo, e das greves do ABC terem surgido após um processo repressivo contra jovens trotskistas e outros militantes, sua conclusão é que “Isto é sinal de que são garantias, são indícios muito sérios de uma continuação dum processo revolucionário”

De fato os levantes da classe operária passam por altos e baixos, por milhares de derrotas, mas sempre voltam a acontecer. Isso é um indício de que a classe operária é a única com a potencialidade de destruir o capitalismo e construir uma sociedade de novo tipo. Porém na reflexão de João Bernardo não há nenhuma tentativa de discutir os motivos dessas derrotas. Não podemos nem dizer que faça exatamente um balanço, pois para ele os processos derrotados são sempre, e em si mesmo, “uma continuação dum processo revolucionário”. Portanto não é necessária nenhuma ação consciente para desenvolver um fio de continuidade entre esses processos.

Depois o “Ruptura” indagou:

 

-“O conteúdo do socialismo é a autogestão. Entretanto, as diversas e rápidas experiências auto-gestionárias foram derrotadas pelo capital. Hoje, o modo de produção capitalista ao mesmo tempo que demonstra força demonstra suas fraquezas. Quais são as perspectivas da autogestão neste quadro histórico marcado pela ambigüidade?”

 

A passagem da resposta que mais nos interessa é essa:

 

“O máximo que se pode dizer, com os pés no chão, é que no capitalismo existem esplêndidas condições para se ultrapassar a sociedade de classes, mas acho que vai ser um processo muito longo, de muitos séculos. Eu não creio que a classe trabalhadora vá rapidamente derrubar o capital. Ela conseguirá avançar e dentro destes ciclos de recuperação avança a recuperação da classe trabalhadora por parte do capital e cada vez que a classe trabalhadora faz um novo avanço, faz num terreno recuperado pelo capital. (…) A luta se torna cada vez mais profunda(…)”

 

Concordamos que a luta é cada vez mais profunda no sentido em que as contradições do capitalismo se tornam mais profundas a cada ciclo. Porém combatemos a idéia que esse ciclo é inerente ao capital, por leis econômicas, e independe das resoluções políticas dos momentos históricos decisivos. O motor da história ainda é a luta de classes. Os ciclos se refazem a cada crise em que o proletariado não consegue ser vitorioso contra a burguesia. Ou seja, não consegue impor sua resolução contra o capitalismo, que por sua vez, através de uma grande destruição de forças produtivas pode se recuperar, mas agora com suas contradições mais aprofundadas e adiando o momento decisivo para o futuro.

Portanto o que discordamos, de João Bernardo é trabalhar com a idéia de que devido a isso o proletariado irá ser vitorioso só daqui a muitos séculos. Achamos que esse posicionamento expressa bem sua visão anarquista que expressamos acima. Em outra passagem da mesma entrevista ele afirma: “Você sabe o nome do cara que só luta quando sabe que vai vencer? É um covarde!”. Concordamos plenamente! Mas acrescentamos que “Só luta de verdade quem se propõem a vencer!”

 

De novo sobre os que trocam de lado. A experiência Brasileira

 

  Mário, militante da Ler-qi e trabalhador da Unicamp, centrou sua intervenção fazendo um balanço do PT. Mostrou que o processo que apontou João Bernardo não ocorreu de forma automática. Mas que houve distintas estratégias e concepções que se confrontaram. E mostrou que Lula e os autênticos, diferente do que muitos dizem, não expressavam uma política conseqüente que foi abandonada com a chegada ao poder. E sim que desde o início do PT estes já eram oportunistas dentro do movimento operário. Já defendiam o eleitoralismo e combatiam com todas as forças a auto-organização e agiam para subordinar as grandiosas lutas contra a ditadura a setores burgueses. Apresentou que a burocratização do PT e dos sindicatos não foi, e não é, um fenômeno ideológico apenas, mas que contém base material: os privilégios. No caso dos “autênticos”, o combate a auto-organização das lutas era uma forma para que os privilégios da burocracia sindical não fossem questionados e, assim como faz toda burocracia por estar afastada dos interesses da classe, vender o movimento operário.

 Saudamos o caminho que escolheu Mário. Não deixa de criticar com dureza nenhum dos traidores e nem negar há tendência existente de dentro do movimento operário se construir figuras dirigentes do capital. Mas acrescenta a reflexão dos meios em que ocorreu esse processo, discute as estratégias e posicionamentos das forças políticas envolvidas, aponta as bases objetivas que o possibilitou.

 O processo que formou o PT, foi uma experiência riquíssima que só foi possível por elementos subjetivos progressivos presentes naquele momento histórico da classe operária brasileira, independente de suas direções. O classismo, a independência de classe, que existia na formação do PT, não era uma política de Lula e dos “autênticos”, mas um anseio extremamente progressivo e um aprendizado da classe operária brasileira em sua luta contra a ditadura[9]. Lula, ao contrario, pensava desde aceitar propostas a formar um partido sem independência de classe até voltar ao MDB. Porém no momento onde as linhas políticas do PT e seu caráter ainda estavam amorfos não houve nenhuma força política que conseguiu, sem capitulações a direção burocrática e conciliadora do futuro presidente do Brasil, mudar os rumos impostos pelos oportunistas. Conforme o projeto político burguês dos “autênticos” ia se fortalecendo, não só o PT ia perdendo as características progressivas de sua fundação, como as correntes mais críticas iam se adaptando cada vez mais a Lula, e ao projeto conciliador. Começavam a usufruir dos privilégios sindicais e a cair de cabeça dentro do eleitoralismo.

Para João Bernardo talvez isso seja uma prova de como mais uma vez os dirigentes se transformam em burocratas, dirigentes capitalistas, contra a base. Porém seu desprezo a uma atuação consciente parece fazer ele jogar uma certa quantia de culpa sobre a própria base. Se o movimento autônomo da base é, por si mesmo, a saída, porque esta não conseguiu combater as direções capituladoras? Essa reflexão parece ausente em João Bernardo. Mesmo que este não fale, seu pensamento é bem passível de, envolto da estratégia anarquista, capitular ao idealismo de afirmar que a consciência da classe ainda não está preparada. E já que, provavelmente, a revolução é coisa de séculos, também é bem possível que o movimento autônomo algum momento possa superar também essas direções. O “marxismo anarquizante” de João Bernardo assim como todo anarquismo acaba “deixando a classe ao léu”.

 

Para desgosto de João Bernardo. Voltamos ao “Que fazer?” de Lênin.

 

Provavelmente, João Bernardo veja o Que Fazer? de Lênin com a clássica visão autonomista que ali estaria à base do autoritarismo bolchevique na medida em que defende que a consciência socialista vem de fora. Porém temos outra visão e achamos que o Que fazer? pode nos dar indícios frutíferos para a prática revolucionária no presente.

Lênin via em 1902 um movimento espontâneo da classe operária russa, que devido ao desenvolvimento do capitalismo russo iniciava de forma veloz seu movimento sindical. Porém não um movimento sindical em si mesmo revolucionário, mas contraditório, que na medida em que lutava por melhores condições de trabalho se limitava a negociar o “valor da força de trabalho”. Frente a esta realidade Lênin se negou a “cultuar a espontaneidade” e discutiu a forma dos marxistas contribuírem para elevar a atividade política das massas, de não se tornarem dirigentes trade-unistas, mas tribunos do povo que estivessem intimamente ligados a classe, mas sem se adaptar a suas características ainda não revolucionárias. Que ao invés de rebaixar a atividade dos revolucionários a uma atividade trade-unista elevasse a atividade do conjunto da classe, ou setores dela, a atividade revolucionária.

A questão é que nem sempre a classe é, por si só, revolucionária. A exploração capitalista faz que esta absorva características e ideologias não necessariamente socialistas, e mesmo burguesas. Porém as diversas crises impulsionam a classe a saltos de consciência, e nestes momentos surgem espontaneidades revolucionárias fundamentais. O aparecimento dos Soviets em 1905 foi um exemplo disso, a classe operária espontaneamente produziu um modelo organizativo que não expressava as tendências objetivas trade-unistas dos anos anteriores, mas sim um organismo de frente única para a luta política da classe operária. Algo que não existia quando Lênin escreve Que Fazer?.

O combate de Lênin para que os revolucionários e sua organização não se confundissem com as trade-unistas não impediu que este percebesse quando a classe operária estava ensinando. Lênin em 1905 propõem que o partido se abra mais à classe operária que havia expressado espontaneamente características revolucionárias e a defender os soviets como mecanismo fundamental de frente única das massas.

O combate de Lênin aos economicistas se dava no sentido de forjar uma importante vanguarda que intimamente ligada à classe, com uma sólida teoria e organização pudesse identificar as pressões objetivas que atrasavam a atividade política da classe, e não capitular aos elementos não revolucionários. Dessa forma era importante forjar verdadeiros tribunos do povo capazes de elevar a atividade e consciência do conjunto da classe, e não se adaptar as características não socialistas dela.

Óbvio que João Bernardo discorda disso. Este se considera um “ideólogo por profissão, muito cético a ideologia”[10]e, portanto, espera que, na prática e por si só, a classe avance na consciência e futuramente derrote o capital. Nós, assim como Lênin, vemos urgência na revolução e confiamos na capacidade criativa da classe operária, e achamos imprescindível para vitória unir a consciência socialista à espontaneidade revolucionária do proletariado. Para isso é necessário que não nos adaptemos as pressões do capitalismo, é necessário que nos armemos com uma sólida estratégia, que nos prepare para os momentos históricos decisivos. Para nós atuar em toda luta, e nos momento mais difíceis com essa perspectiva é ousar vencer!

Há muitas diferenças de nosso momento histórico, para o que passava Lênin. A classe operária passou por muitas outras experiências e também derrotas. As pressões que o capitalismo impunha para atrasar a consciência da classe operária não são as mesmas. Mas, com certeza, essas pressões existem. Décadas sem nenhuma revolução, anos de democracia burguesa, sindicatos burocratizados, dirigentes sindicais parceiros dos capitalistas, inúmeras traições, décadas de reação ideológica são exemplos de características que pressionam os revolucionários a jogarem para um futuro distante sua óbvia e única tarefa: “Fazer, junto à classe operária, a revolução!”. O crescimento do movimento sindical trade-unista era uma pressão objetiva para rebaixar a atividade política dos revolucionários. Hoje, devemos achar quais são essas pressões e não nos adaptarmos, na verdade, combate-las.

 

Conclusão

 

O que mais nos impressionou no debate é que o elemento da auto-organização poderia ser muito bem defendido por João Bernardo. Porém nem isto apareceu em suas intervenções. Empolgado apenas em demonstrar como dirigentes de esquerda ao não se “diluírem nas massas e movimentos sociais” são transformados em gestores do capital não contribui em saudar os ativistas presentes com suas experiências.

Nossas diferenças com João Bernardo são imensas, porém em tempos de tanta reação ideológica ele não é de forma alguma um militante e pensador de visão estreita, mas sim um sujeito político valoroso. Esteve envolvido em importantes processos operários europeus, principalmente em Portugal, na década de 70, que envolviam controle operário e experiências de democracias diretas. Muito mais de uma vez se posicionou interessantemente sobre processos de ocupações de fábrica e sobre mecanismos de auto organização das massas; não capitulou frente à grande onda que abalou a intelectualidade de esquerda, entre vários que se reivindicavam marxista, do “fim da classe operária”; criticou de forma consistente a burocracia sindical e a conciliação de classes; e girou esforços para contribuir em diversas lutas populares e estudantis[11].

Mas esses elementos não estavam presentes em sua fala. O tema da mesa era métodos de resistência e este discutiu apenas as formas de cooptação para o capital, sem apresentar aos militantes presentes[12] nenhuma visão de como deveríamos agir frente a isso. No máximo disse frases genéricas como consultar a base[13].

A verdade é que o desprezo pela atividade revolucionária consciente e seu esforço para legitimar isso teoricamente, fez com que João Bernardo rebaixasse sua própria experiência, se negando a contribuir pela positiva com balanços de sua própria história. Essa postura de quem acha que a “continuidade do processo revolucionário” se da por si só, independente da ação consciente, condiz com uma de suas afirmações finais, que “discutir estratégia para vencer, é coisa de quando eu tinha 18 anos.” Bom, nós repudiamos que hoje a esquerda nada discuta de estratégia, e achamos uma qualidade dos anos 60, quando João Bernardo tinha 18 anos, o fato desse debate ser tão presente.

 

 

 


[1] Futuramente escreveremos uma crítica aprofundada sobre a teoria das duas classes de João Bernardo. Por hora queremos nos limitar a ligar essa teoria a suas concepções e posicionamentos políticos, a sua estratégia.

[2] E apesar de João Bernardo tanto se vangloriar de ser um pensador autodidata, não consideramos que seus textos e pesquisas estão alheios a esse processo.

[3] Arquivo Edgard Leuenroth. Importante arquivo do movimento operário. Ver “A dominação na História e a História da dominação” em https://revistaiskra.wordpress.com/

[4] É conhecida nossa crítica a Álvaro Bianchi, intelectual ligado ao PSTU, que na Gestão do Arquivo além de não dar uma batalha contra a terceirização que ocorre de seus serviços, tem se mostrado totalmente acrítico a homenagens a figuras governistas, e tem se pronunciado complacente a política de tornar esse arquivo em um arquivo da Unicamp. Para nós a política a ser tomada pela esquerda nesse caso é exatamente oposta. Devemos lutar para tudo que seja produzido na universidade esteja cada vez mais a serviço e nas mãos dos trabalhadores, e menos da burocracia das universidades elitistas e racistas que produzem conhecimento para o capital.

[5] Para João Bernardo na revolução russa o proletariado havia lutado contra o modo de produção capitalista, confundido a burguesia com sua totalidade, não conseguindo identificar os gestores enquanto classe capitalista. Portanto a revolução de 17 seria um processo onde havia duas classes lutando pela eliminação da burguesia: o proletariado e os gestores. Esta ultima classe haveria sido vitoriosa não apenas por ter ganhado militarmente da burguesia, mas também por ter conquistado a função de dirigir, de acordo com suas características de classe o capitalismo russo e explorar o proletariado.

[6] Debateremos neste futuro texto outras concepções de João Bernardo como a distinção entre “marxismo das forças produtivas” e “marxismo das relações sociais de produção”, sua visão sobre uma suposta mudança de significado da teoria da revolução permanente após a tomada do poder pelos bolcheviques, sua dupla visão de estado. Posições teóricas defendidas por João Bernardo que entendemos fazer parte de um mesmo propósito: negar a necessidade da luta proletária pelo poder político, da constituição da ditadura do proletariado e retirar do marxismo a teoria de transição do modo produção capitalismo ao comunista.

[7] http://api.ning.com/files/-9ibZOmJBNY5*St3Hb5THw7CK-72eUbfKSRhvYW*Aa0_/ Poderíamos discutir inúmeras passagens dessa entrevista, mas nos centraremos em duas que muito se liga ao que discutimos.

[8] Os processos de tomada de fábrica e controle operário que ocorreram em Portugal em 1974 e 1975.

[9] Ver “A classe operária na luta contra a ditadura”. Cadernos Estratégia Internacional Brasil.

[10] Também na entrevista http://api.ning.com/files/-9ibZOmJBNY5*St3Hb5THw7CK-72eUbfKSRhvYW*Aa0_/

[11] João Bernardo contribui, recentemente, com praticamente todas as campanhas contra repressão à lutadores nas universidades estaduais paulistas

[12] Que eram, a titulo de passagem, os estudantes mais pró-operários e dispostos a construir alternativas militantes e menos iludidos com o regime universitário.

[13] O que foi muito bem combatido por Mário que apontou que a base material da burocratização é os privilégios e que nem sempre a base tem a resposta, mostrando como hoje no Brasil grande parte da classe operária e do povo pobre confia e está impactada com o lulismo.

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