Organizando a derrota: uma mesa intitulada “Stalin”, organizada pelo grupo Rosa Vermelha

por Iuri Tonelo

Por suposto, a academia é pólo ideológico bastante contraditório. Os debates que germinam aí não mantém relação mecânica com a privatização acelerada das universidades estaduais, mas a refletem distorcidamente. São diversos os espaços abertos na academia para propagandear a sociedade do capital que fazem paralelo com alguns espaços de crítica e reflexão sobre essa sociedade. Algumas vezes, ainda encontramos o nome de Marx e dos posteriores adeptos do materialismo dialético e da perspectiva da revolução proletária, retomando as questões do socialismo. Mas o que não víamos há tempos, especialmente na Universidade Estadual de Campinas (conhecida pela tradição “marxista” presente), era a abertura de uma mesa cujo tema não deixa nenhuma dúvida da perfídia a que se propunha: “Stalin” – uma mesa para falar de um “dos grandes nomes do pensamento marxista do século XX”, organizada pelo grupo Rosa Vermelha, em seu ciclo de debates “Leituras Marxistas do Século XXI”.

Não nos surpreende – posto que recorrente, especialmente na tradição intelectual brasileira, que tenha algum stalino em uma mesa defendendo as velhas posições do “socialismo num só país”, dos países “maduros e não maduros para revolução”, etc. – pois essa estratégia (ou traços fundamentais dela) é das mais influentes até hoje em nossa intelectualidade. O que nos surpreende é um grupo como Rosa Vermelha, vinculado a jovens intelectuais e conhecidos professores do PSOL, como Plínio de Arruda Sampaio Jr., abrirem o espaço de uma mesa em um ciclo de debates promovido por eles para que um stalinista ortodoxo como João Quartim de Moraes faça uma intervenção inteira reivindicando as maiores atrocidades cometidas por Stalin (e quem puder ter acesso ao vídeo, vera que ele não só defendeu o massacre ocorrido nos processos de Moscou contra toda a vanguarda da revolução, mas também defendeu (tergiversando direta ou indiretamente) os métodos nefastos de falsificações, torturas, expurgos contra os revolucionários e os trabalhadores – uma coisa horrenda, que para ele era tida como um sutil exagero, no máximo.

Ademais, a falência histórica do stalinismo enquanto doutrina com peso influente no movimento operário (vide o tamanho e força minúsculos do PCB, além de sua crise partidária com centenas de defecções recentes – na maioria, de jovens; e do PCdoB, um partido que se tornou parte da base governamental que apoiou Lula e que apóia o governo Dilma no vergonhoso enclausuramento dos arquivos da ditadura militar e avalista da impunidade dos genocidas, e apoiando a política externa petista de manutenção das tropas de ocupação brasileiras no Haiti, como bom serviçal dos interesses norte-americanos que os stalinistas dizem “abominar” – para citar dois exemplos), como dizia, essa falência se refletiu na estruturação da intervenção de Quartim de Moraes, que certamente pensava já ter visto “melhores dias” para colocar tudo o que pensa: o diretor do Centro de Estudos Marxistas da Unicamp – mais uma das contradições do marxismo acadêmico – teve de colocar como eixo os “grandes passos” dados por Stalin no século XX, como a industrialização da ex-URSS (sem citar absolutamente em que condições e a serviço de que essa industrialização foi feita); a vitória do exército soviético em 1945 sobre o exército nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Tudo isso, com o artifício seletivo de “saltar” diretamente para o ano de 1928 no início de sua exposição – ainda que isso não facilitasse, mas agravasse sua tarefa de falsificação e omissão – não discorrendo sobre os anos de stalinização do partido bolchevique, a destruição concomitante da vanguarda revolucionária do partido e das tradições revolucionárias do bolchevismo, nem muito menos das intensas e cruentas descargas de repressão aos trotskistas e operários e camponeses revolucionários em todos os centros revolcuionários em ebulição na Europa. Para Quartim, não havia “outra alternativa” ao pacto Hitler-Stalin, embora os furiosos processos revolucionários durante toda a década de ’30, apagados a sangue e fogo pelo stalinismo em aliança com a burguesia imperialista, dissessem absolutamente o contrário.

Longe de cair no enunciado inicial de Quartim de Moraes de que se tratava de uma exposição acadêmica (o que psolista Plínio de Arruda Sampaio Jr. fez questão de exaltar, “uma atividade sensacional”), o que estava colocado ali era uma propaganda do stalinismo em nome do marxismo, que para o público heterogêneo da Faculdade de Educação (em que havia de calouros a velhos ativistas) poderia gerar confusão – Quartim de Moraes chegou a dizer, por outras palavras, que o programa de Trotsky da Revolução Política,  que propugnava que as massas irrompessem contra a burocracia e retomassem em suas mãos as rédeas do Estado Operário e o que restava das conquistas de Outubro, se resumia ao imperativo de Trotsky de que “Stalin precisava ser assassinado”, como se as críticas de Trotsky não se dirigissem a todo o complexo burocrático que deveria ser derrubado (a começar por  Stalin evidentemente), reduzindo sua analise a uma critica pessoal e equivalendo-a, nesse sentido, a de Stalin.

Assim, os militantes da Liga Estratégia Revolucionária – Quarta Internacional (LER-QI) fomos até este espaço desenvolver nossas críticas tanto aos posicionamentos bizarros de Quartim de Moraes, quanto à própria idéia da atividade (que ao invés de nos aproximar do socialismo, seguramente alimenta os mesmos erros que nos afastaram categoricamente dele, colocando não alguém disposto a discorrer sobre a tragédia do stalinismo, mas a reivindicá-la). Em vista disso, debatemos os principais posicionamentos colocados, em que o filósofo stalinista colocava-se como “aquele que quer dialogar idéias” – como se todos não conhecessem a história deste ideólogo do stalinismo e, enfim, do próprio stalinismo e seus métodos, que sempre dialogou com o trotskismo, com os operários e camponeses, e com a revolução, com fuzil e falsificações.

Mas o público pode ter uma idéia de como se porta realmente esse ideólogo ao final quando nos propusemos a debater um ponto de sua fala, e este senhor respondeu aos berros e de modo essencialmente autoritário (utilizando sua posição de estar na mesa) “não me interrompa, não interrompi você quando estava falando” – à moda “democrática” dos stalinos.

Assim, a partir do debate, não nos parece ter restado dúvida para muita gente que aquele senhor falava em nome de qualquer coisa, menos do marxismo. É muito importante que, cada vez mais, essas velhas posições stalinistas que viveram anos e anos da falsificação, dos expurgos, das burocracias nacionais e seus privilégios etc., sejam combatidas efusivamente, seja no movimento operário (onde ainda prevalece a carcaça stalinista como freio dos trabalhadores), como nos espaços de discussão ideológica – para que pouco a pouco desvinculemos o nome da revolução proletária, da ditadura do proletariado, do bolchevismo e do marxismo – dessa degeneração burocrática (meados de 1920) e totalitária que dava contínuos passos de gigante, e que a partir de 1936 se expressou nos fascínoras Processos de Moscou, na URSS, e nos assassinatos de militantes e operários revolucionários em diversos países sob as mãos da polícia política de Stalin.

Se alguns grupos ainda querem Stalin, “o grande organizador de derrotas”, como um grande marxista do século XX, nós nos posicionamos prontamente para desmistificar essa idéia.  A degeneração do Estado operário soviético tratou-se de uma das mais importantes crises para a luta operária e para a emancipação da humanidade na História. O papel de Stalin manchando de sangue operário a luta pela revolução proletária não pode ser esquecido. Lembremos com Trotsky essa tragédia e superemos essa passagem nebulosa na história do movimento operário:

Foram esmagados os velhos quadros do bolchevismo. Destruídos os revolucionários. Foram substituídos por funcionários de espinha flexível. O pensamento marxista foi substituído pelo temor, pela calúnia e pela intriga. (…) Lênin, como disse Krupskaia, somente pela morte livrou-se das repressões da burocracia; na falta de oportunidades de colocá-lo preso, a epígonos o trancaram em um mausoléu. Todo o setor governante se degenerou. Os jacobinos foram substituídos pelos termidorianos e pelos bonapartistas, os bolcheviques foram substituídos pelos stalinistas (Trotsky. Estado Operário, Termidor e Bonapartismo)

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