Sobre Zizek (Em defesa das causas perdidas) – pt 1

por Edison Salles

O último livro de Zizek, concluindo em certa medida um itinerário anunciado nas obras imediatamente anteriores, é uma das publicações mais interessantes do último tempo.

Mais do que um “amadurecimento” do autor, é um sintoma da mudança em curso no mundo. Mais do que um “filósofo político” como quer o prefaciador à edição brasileira, Zizek vale aqui sobretudo como “homem antenado” de seu tempo.

Para além de todos os comentários instigantes e perspicazes sobre “deus e o mundo” que recheiam o livro, sobressaem-se os temas que Zizek resolveu “reabilitar” após tantos anos de retrocesso ideológico: o intelectual radical, o terror revolucionário, e, ainda que com menos vigor, a ditadura do proletariado. Tudo sempre, navegando em meio ao mar de noções marxistas e psicanalíticas por ele mesmo criado.

Como a maioria dos que lerão este texto (post?) seguramente não terão lido todo o livro, e grande parte sequer conhece o autor, vale a pena deixar claro: Zizek não deixa de ser uma versão “high-tech” de centro-esquerdista europeu, e a radicalidade de alguns de seus posicionamentos não é, nem de longe, acompanhada por nenhuma verdadeira coerência.

Para falar de uma questão precisa, que poderia fazer toda a diferença quanto ao significado político direto do livro: falando de “intelectuais radicais” e “Terror revolucionário” (e de “ditadura do proletariado”) Zizek se demora mais em Robespierre e em Mao do que em Lenin. Quanto a este, chama a “repetir Lenin”, mas expressamente se diferencia dos que querem seguir o bolchevismo como corrente histórica. Chama a aceitar a “necessidade” de Stalin como continuador de aspectos do leninismo, apesar de reconhecer a radical mudança (regressiva) havida entre um e outro. Chama a repetir a ação Lenin, mas não como acumulação e ápice da experiência histórica, mas como “Evento”, como “um salto no abismo”. (Um amigo sugeriu o quanto há de estetização (ou estilização) do processo histórico, um procedimento tipicamente pós-moderno).

Dito isso, ou em outras palavras: que a análise de Zizek passa de maneira apenas superficial e ainda assim fundamentalmente errônea sobre a experiência central que poderia iluminar não só o combate anticapitalista em geral (o livro seguramente se inscreve nesse combate), mas também em particular os “três temas” discutidos em seu livro. Por isso sua análise não pode mais do que ser super-abstrata (mas nem por isso sem deixar pistas interessantes).

(Na análise sobre Robespierre, em crítica especialmente a Claude Lefort, é bastante inspirado. Na de Mao, ainda bastante tributária de Badiou e da família de intelectuais franceses filomaoístas, suas limitações ficam muito mais claras.)

Enfim, o que há de interessante no livro, além dos temas que suscita?

Em primeiro lugar, o fato de que reflita ao mesmo tempo o fim da restauração (ou a ativação de seus limites) e as formas moldadas por ela mesma. Em outras palavras: o livro é um libelo anti pós-moderno… impregnado de espírito pós-moderno!

Mais do que mostrar o quanto Zizek ainda é tributário da “ideologia da restauração” (em sua versão de esquerda, é claro), creio que nos interessa explorar aquela ambivalência como verdadeiro sintoma dos tempos.

Porque hoje, em quase toda parte, o que vemos é um quadro ambivalente, em que os contornos do novo começam a despontar, mas ainda se refundem e diluem permanentemente no pano de fundo da velha etapa, que teima em não se deixar vencer.

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