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A necessária luta contra a universidade que “explora por excelência”: é preciso coordenar as lutas em curso e lutar para unir o que a burguesia separou!

 por André Augusto e Danilo Magrão, militantes da LER-QI

No dia 22 de setembro, a Unicamp de súbito encontrou seu restaurante universitários de portas fechadas. Aqueles trabalhadores que sempre ficavam escondidos atrás das esteiras das bandejas resolveram aparecer a público. A máquina utilizada para limpar diariamente cerca de oito mil bandejas quebrou (mais uma vez dentro de inúmeras), e para que a comunidade acadêmica não tivesse sua alimentação prejudicada os gestores da empresa terceirizada (EB-Alimentos) – com o consentimento da burocracia acadêmica – incumbiram a cerca de 5 trabalhadores a limpeza manual dessas milhares de bandejas. A alternativa primeira e óbvia para esses abjetos gestores do capital foi submeter esses trabalhadores às absurdas condições extenuantes de trabalho para que nada saísse de sua aparente normalidade.

    

Um daqueles trabalhadores, que mais uma vez pagou com seu suor os reflexos do regime de terceirização, resolveu levar a denúncia para o STU (Sindicato dos trabalhadores da Unicamp), e por ter se levantado contra aquele absurdo recebeu a premiação de ser transferido de seu local de trabalho para outro distante. Porém dessa vez, a revolta acumulada não permitiu que esse caso entrasse na lista dos tantos outros que são omitidos pela conveniência da super-exploração. Suas companheiras e companheiros de trabalho, demonstrando solidariedade de classe, resolveram paralisar na hora suas atividades até que essa clara repressão política fosse desfeita.

Dessa pequena faísca uma labareda de denúncias foram trazidas à luz. As palavras dos trabalhadores se multiplicavam expondo os cotidianos assédios e humilhações sofridas. Com mãos marcadas pelo uso de químicos, partes do corpo queimadas pela falta de manutenção do maquinário, cicatrizes psicológicas provenientes dos constantes assédios sofridos da chefia, o alerta pela tragédia anunciada de um teto repleto de mofo e rachaduras, as palavras se multiplicavam sem freios. O combustível delas é intrínseco ao regime de terceirização do trabalho, um dos pilares do projeto de educação elitista defendido e imposto por Reitorias e governantes.

    A terceirização e a precarização do trabalho também são bases constitutivas do projeto de país do Brasil. O avanço dos postos de trabalho, tantas vezes propagandeado pelo PT e seus ideólogos, acontece sob o estigma da super-exploração dos trabalhadores. Sua precarização vai desde salários de fome até o cerceamento de expressar-se política e organizadamente – retrocessos em quase todos os direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora. O projeto de país de Lula e Dilma, com o selo da Copa e das Olimpíadas, está impregnado de precarização por completo. Recentemente, os trabalhadores terceirizados do Maracanã e do Mineirão paralisaram suas atividades para denunciar, entre outas coisas, o descalabro da comida podre que era servida em suas alimentações.

    Ainda dentro desse projeto de pais, no qual se elege a primeira presidenta, que desde a sua campanha eleitoral até seu último discurso na ONU, enaltece o avanço que seu mandato representa para a questão feminina, mas o que a realidade apresenta é o oposto, também, desde as eleições quando usa a questão do aborto como moeda de troca por votos, mantendo-o proibido enquanto milhares morrem ao faze-lo clandestinamente, como pela manutenção de um modelo econômico pautado na precariedade do trabalho e da vida. Esses postos de trabalho terceirizados são em grande maioria composto por mulheres, isso devido à opressão e ao machismo mantidos pela Igreja, Estado e pela moral burguesa, a força de trabalho feminina tem um valor menor dentro do mercado de trabalho, legitimando que estas ocupem os empregos mais precários, sem condições mínimas de segurança, direitos como creches, licença maternidade, e ainda sofrendo constantemente com assédios morais e sexuais. Nesse sentido, a terceirização é também uma forma de violentar as mulheres, física e psicologicamente.

Cabe lembrar que a terceirização não é uma mérito de nossa semi-colônia, mas um fenômeno mundial onde segundo as próprias estatísticas da OIT (Organização Internacional do Trabalho) quase metade da força de trabalho do mundo é terceirizada ou precarizada. Na Alemanha, nos últimos dez anos a oferta trabalhista encheu-se com trabalho terceirizado, e é o que explica os números positivos com os quais o governo Merkel fala de diminuição da taxa de desemprego. Nesse contexto, estoura no país uma greve no que é o maior hospital da Europa, Charite Facility Management, que subcontrata pessoal com contratos individuais e temporários, baixos salários, péssimas condições de trabalho e ameaça de demissão, em que os trabalhadores buscam a contratação direta e coletiva dos funcionários terceirizados que prestam serviço ao hospital. Na Espanha, por exemplo, o Ministério do Trabalho suspendeu uma série de direitos trabalhistas e, com eles, uma medida que colocava limites na sanha empresarial pela contratação de mão-de-obra terceirizada, deixando a nu como a burguesia quer tratar a juventude estruturalmente desempregada, durante a crise econômica mundial.

    Assim que o contexto brasileiro reverbera essas contradições mundiais, em um patamar qualitativo de mais exploração e precarização. As lutas dos setores mais precarizados, o “subsolo da classe operária”, se mostrou o elemento mais explosivo na luta de classes no Brasil durante o primeiro (chamando a atenção para o caso de Jirau e Santo Antonio, com greves selvagens dos trabalhadores) e segundo semestre, combinado às explosões de greves dos metalúrgicos, dos Correios, petroleiros, bancários e professores da rede pública, setores com melhores condições de organização, mas cujo elemento político não tem peso dominante.

Uma dessas lutas que pode ser apontada particularmente, por sua dimensão atingida e repercussão entre trabalhadores, estudantes e intelectuais, foi a greve das terceirizadas da empresa UNIÃO, na USP, no primeiro semestre de 2011, tanto por sua combatividade como pelos triunfos que daí derivaram. Uma verdadeira experiência estratégica na luta de classes lado a lado com os setores mais precarizados que mostraram uma grandiosidade e tenacidade impressionantes.    Após 12 dias em greve, os trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas desta empresa, que presta serviços para a Universidade de São Paulo, conseguiram arrancar o pagamento dos salários do mês de março, mantendo sua greve até a próxima semana para garantir o pagamento de todos os outros direitos. Através da auto-organização para lutar contra o regime de semi-escravidão (com o auxílio do combativo e classista Sindicato dos Trabalhadores da USP, buscando fazer a diferença na luta de classes levantando o programa de unidade das fileiras operárias), o que se iniciou como um conflito salarial, ao elevar-se do patamar sindical ao patamar político, foi capaz de abrir uma importante crise na universidade questionando profundamente o papel que cumpre a terceirização do trabalho.

 Essa tradição forjada na luta contra a terceirização do trabalho demonstrou sua ressonância na luta da semana passada com a empresa BKM que presta serviços de paisagismo e jardinagem na USP: um dia de ocupação dos trabalhadores de uma das salas da reitoria – por conta do atraso salarial – obrigou a burocracia acadêmica a se encarregar do pagamento atrasado dos operários, do qual é cúmplice direta.

O passo estratégico que foi alcançado naqueles dias de luta foi ter aberto de forma profunda a crise da terceirização na universidade, e feito com que a palavra de ordem pela “efetivação dos terceirizados” se colocasse na boca de centenas de estudantes, se fizesse valer com a assinatura de centenas de juristas, advogados e professores, saísse nos jornais e na mídia burguesa, virasse tema de debate e possibilidade de programa real, de reivindicação justa, elementar, democrática.
Encontrar e combater não só os efeitos (a degradação dos direitos trabalhistas) mas a causa desses efeitos – a separação das fileiras operárias, naturalizando a idéia de “políticas diferentes para setores diferentes da classe operária” – possibilita investir contra as atrocidades da terceirização (não pagamento de salários e direitos, assédio moral e péssimas condições de trabalho) tomando pelo pescoço a sua essência: lutar por unir o que está artificialmente separado pela burguesia.

Nesse sentido, achamos que a luta que se iniciou a partir das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados não vem sendo encarada com um programa e uma prática política a altura pela atual gestão do STU, composta pelo Vamos a Luta (coletivo ligado ao PSOL). Em primeiro lugar, vemos um descompasso entre a discussão feita pela chapa nas eleições (há poucas semanas atrás) – que coloca a luta contra a terceirização como um ponto fundamental da chapa – e a prática política concreta da atual gestão em meio ao conflito, uma vez que se baseiam nos programas mínimos (de volta ao trabalhador e conserto da esteira de limpeza), mas não ligam essas questões ao real problema da precarização do trabalho e do regime de super-exploração a que são submetidos os trabalhadores no bandejão, portanto, sem reivindicar o programa da efetivação desses terceirizados sem concurso publico, com todos os salários e direitos dos efetivos. Em segundo lugar, porque a própria lógica de fazer reuniões (“assembléias”) do sindicato com os terceirizados com os chefes e supervisores presentes (expondo os trabalhadores a seus carrascos), e canalizar toda a mobilização na negociação com a reitoria e a prefeitura (o STU se curvou à chantagem da Reitoria de só negociar com a volta ao trabalho, contrariando o desejo dos terceirizados de paralisar o restaurante até o retorno de seu companheiro) sem nenhuma independência de classe, mostra uma estratégia de pressão que joga contra a mobilização e tem como resultado não auxiliar os trabalhadores a se auto-organizarem, com métodos de luta de classe e buscar de maneira independente suas reivindicações, sem semear ilusões nas reitoria e prefeitura e sem apostar nas suas próprias forcas. Em terceiro lugar, porque não fazem assembléia dos efetivos e não buscam uma aliança entre efetivos, terceirizados e a base do movimento estudantil, colocando de pé uma grande campanha de denuncia da “ universidade de excelência” que mantém um regime de super-exploração do trabalho, partindo da paralisação para transformá-la em uma imensa batalha de classe.

Essa situação de degradação das condições de vida e trabalho na universidade a serviço da burguesia mostra que é preciso voltar-se contra os agentes da burguesia que alimentam a engrenagem da exploração capitalista com o suor e sangue da rotatividade e do abuso dos direitos trabalhistas, como o Estado brasileiro, o governo Dilma, e nesse caso, a Reitoria da Unicamp. Atuando politicamente contra a Reitoria privatista da Unicamp, que caminha de mãos dadas com os planos do governo federal com planos como o Inova Brasil, de desenvolvimento de tecnologia para as empresas capitalistas brasileiras; que mantém instaladas bases militares dentro da universidade; que abre sindicâncias arbitrárias contra combatentes; e que abre as portas para que a empresas terceirizadas despojem o patrimônio público, é necessário forjar uma vanguarda de trabalhadores e estudantes que levante bem alto a exigência da efetivação de todos os terceirizados sem a necessidade de concurso público retomando a experiência que tivemos ano passado no IFCH, onde nós da LER-QI impulsionamos junto a outras correntes e lutadores um comitê contra a terceirização, que inclusive culminou em um ato com mais de 200 pessoas, em que estudantes e trabalhadores levantaram suas vozes para questionar esse regime de super-exploração.

 

 

Nesse sentido, as diversas campanhas recentes do movimento estudantil, discutindo maior financiamento (10% do PIB para a educação), precarização da universidade (falta de professores), currículo, permanência estudantil etc., devem vir atreladas ao papel da universidade hoje, no marco de se ela vai estar a serviço de aumentar a exploração dos trabalhadores e aumentar o lucro das empresas, ou se estará a serviço da massa da população trabalhadora, que financia a universidade com seus impostos e que deveria ter as pesquisas voltadas essencialmente para suas necessidades, devendo a própria universidade estar aberta aos filhos dos trabalhadores e juventude que hoje se mata para pagar seus estudos nos grandes monopólios de ensino privado (que devem ser estatizados para proverem educação gratuita aos trabalhadores) ou não vêem nenhum possibilidade de ter acesso as universidade públicas, que mantém o filtro social do vestibular.

É necessário que as correntes de esquerda como PSTU (a partir da ANEL) e PSOL (na Oposição de Esquerda da UNE) que, num momento em que o movimento estudantil brasileiro em diversas universidades deu primeiros sinais de luta, e num momento em que diversas greves de trabalhadores – como dos professores, correios, bancários, metalúrgicos, petroleiros etc., estão ocorrendo pelo país, devemos deixar de lado os métodos de aparato (com calendário de luta), que jogam todo o peso de nossa atuação na construção de plebiscitos dos 10% para educação “pelo alto”, mas que não se jogam nessas lutas e nos processos vivos de mobilização. No nosso caso, o conflito que se escancara aos nossos olhos é o das trabalhadoras terceirizadas do bandejão, explicitando o caráter da universidade elitista e reacionária que devemos combater. Nesse sentido, é também preciso que questionemos na Unicamp as atuais gestões do DCE, que historicamente não tem movido nenhuma grande luta contra a terceirização e mobilizações para forjar uma aliança operário-estudantil. O CACH, que historicamente se destacou nos anos anteriores na tradição de se colocar em solidariedade ativa aos trabalhadores, inclusive de outros países (Honduras, Haiti), realizando piquetes em portas de fábricas e organizando fundos de greve, nessa gestão foi engolida pela mediocridade e passividade alarmantes, o que pesa inclusive na consciência dos trabalhadores, que dizem que a vida política no IFCH está praticamente morta. O CACH tem de retomar sua tradição combativa enquanto entidade militante com um programa classista de aliança operário-estudantil e de luta contra a terceirização, sendo sujeito do debate vivo e criativo, militante, o único capaz de sacudir o entorpecimento das mentes da juventude, abrir seus olhos e fazê-los ver o que há a frente! 

Por isso, chamamos a todos os estudantes a construírem conosco comitês de solidariedade a esses trabalhadores, atos, mobilizações, rodas de debate, discussões em sala de aula etc. para colocar no centro da Unicamp esse debate, para colocarmos no centro do debate o problema da terceirização, que super-explora o trabalho, precariza os prédios da universidade e é a porta da privatização da universidade via fundações. Nosso grito deve ser pela incorporação imediata desses trabalhadores sem concurso público e para expulsar da universidade essas empresas que só fazem usurpar o financiamento público. É nessa perspectiva que pretendemos atuar no Congresso dos Estudantes da Unicamp!

 

 

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