Bolchevismo e stalinismo

Bolchevismo e stalinismo[1]

Sobre a questão das raízes teóricas e históricas da IV Internacional


Leon Trotski

 


 

Épocas reacionárias como a atual não apenas desagregam e enfraquecem a classe operária, isolando-a de sua vanguarda, como também rebaixam o nível ideológico geral do movimento, fazendo retroagir o pensamento político a etapas já superadas desde há muito tempo. Nestas condições, a tarefa da vanguarda consiste, antes de tudo, em não deixar-se arrastar pelo refluxo geral: é necessário avançar contra a corrente. Se as desfavoráveis relações de forças não permitem conservar antigas posições políticas, pelo menos se deve conservar as posições ideológicas, pois nelas se concentram a custosa experiência do passado. Aos olhos dos tolos, tal política aparece como “sectária”. Em realidade é a única maneira de preparar um  novo e gigantesco salto para a frente, impulsionada pela onda ascendente do próximo ascenso histórico.

 

A reação contra o marxismo e o comunismo

 

As grandes derrotas políticas provocam inevitavelmente uma revisão de valores, que geralmente se processa em duas direções. Por um lado, o pensamento da verdadeira vanguarda, enriquecida pela experiência das derrotas, defende com unhas e dentes a continuidade do pensamento revolucionário e se esforça em educar novos quadros para os futuros combates de massas. Por outro, o pensamento dos rotineiros, dos centristas e dos diletantes, atemorizado pelas derrotas, tende a jogar por terra a autoridade da tradição revolucionária e se voltam para o passado com o pretexto de buscar uma “nova verdade”.

Poderíamos apontar uma infinidade de exemplos de reação ideológica que em sua maioria adota a forma da prostração. No fundo, toda a literatura da II e III Internacionais e a de seus “satélites” do bureau de Londres[2] constituem exemplos deste gênero. Nem sombra de análise marxista. Nenhuma tentativa séria de aclarar as causas das derrotas, nenhuma palavra nova a respeito do futuro. Nada mais além de clichês, coisas de rotina, mentiras e, antes de tudo, preocupações em salvaguardar sua posição burocrática. Bastam dez linhas de qualquer Hilferding[3] ou de Otto Bauer para sentir o odor da podridão. Dos teóricos do Comintern é melhor nem falar. O célebre Dimitrov é tão ignorante e trivial como o mais simples dos merceeiros. O pensamento dessas pessoas é demasiado preguiçoso para renegar o marxismo: o prostituem. Mas atualmente não são estes senhores os que nos interessam. Vejamos os “inovadores”.

O ex-comunista austríaco Willi Schlamm[4] consagrou um folheto aos Processos de Moscou com o expressivo título “Ditadura da mentira”. Schlamm é um jornalista talentoso, cujo principal interesse está dirigido aos assuntos do momento. Fez uma excelente crítica das falsificações de Moscou e desnudou o mecanismo psicológico das “confissões voluntárias”. Mas como não se deu por satisfeito com isto, quis criar uma nova teoria do socialismo que nos imunize contra novas derrotas e falsificações no futuro. Como Schlamm não é um teórico e ao que parece, está muito pouco familiarizado com a história do desenvolvimento do socialismo, acreditando fazer uma descoberta, regressa a um socialismo anterior a Marx, e, ainda pior, à sua variante alemã, quer dizer, à mais atrasada, melosa e simplória de todas. Schlamm renuncia à dialética, às lutas de classes, para não falar à ditadura do proletariado. Para ele, a tarefa da sociedade transformada se reduz à realização de algumas verdades “eternas” da moral, com as quais se prepara para impregnar a humanidade desde agora, sob o regime capitalista. A revista de Kerenski Novaia Rossiia (antiga revista provincial russa, que se publica em Paris), recebeu com alegria e alvoroço a tentativa de Willi Schlamm de salvar o socialismo  por meio de uma injeção de ânimo moral. Segundo a justa conclusão da redação, Schlamm alcança os princípios do “verdadeiro socialismo russo”, o qual desde antes já havia oposto os princípios sagrados da fé, da esperança e do amor à austeridade e rigor da luta de classes.

De fato, a “nova” doutrina dos “socialistas-revolucionários” russos representa em suas premissas teóricas um retorno ao socialismo alemão anterior a março de 1848![5] Mas seria muito injusto exigir de Kerenski um conhecimento mais profundo da história das idéias do socialismo do que de Schlamm. Muito mais importante é o fato de que Kerenski, que agora se solidariza com Schlamm, foi, como chefe de governo, o iniciador das perseguições contra os bolcheviques, tratando-os como “agentes do Estado-Maior alemão”, ou seja, organizou as mesmas falsificações na luta contra o que Schlamm mobiliza agora verdades metafísicas tiradas dos mitos corroídos pelo tempo.

O mecanismo psicológico da reação intelectual de Schlamm e de seus semelhantes é muito simples. Durante algum tempo estas pessoas participaram em um movimento político que jurava pela luta de classes e invocava, da boca para fora, a dialética materialista. Tanto na Alemanha como na Áustria, este movimento terminou com uma catástrofe. Schlamm tira a seguinte conclusão sumária: “eis aqui o resultado da luta de classes e da dialética!” E como o número de descobertas está limitado pela experiência história e pela riqueza dos conhecimentos pessoais, nosso reformador, em sua busca de nova fé, encontrou verdades antigas, desprestigiadas faz tempo, que opõe ferozmente não somente ao bolchevismo como também ao marxismo.

À primeira vista, a variedade de reação ideológica apresentada por Schlamm é também tão primitiva (de Marx a Kerenski) que não vale a pena deter-se nela. Mas é extremamente instrutiva: precisamente graças a seu caráter primitivo representa o denominador comum de todas as outras formas de reação, e, antes, a renúncia total ao bolchevismo.

 

Volta ao marxismo

O marxismo encontrou sua expressão histórica mais elevada no bolchevismo. Sob a bandeira bolchevique o proletariado obteve sua primeira vitória e instaurou o primeiro Estado operário.

Nenhuma força será capaz de apagar estes fatos históricos. Mas, como a Revolução de Outubro conduziu ao estado atual, ou seja, ao triunfo da burocracia, com seus sistemas de opressão, de falsificação e de espoliação – a ditadura da mentira, segundo a feliz expressão de Schlamm – numerosos espíritos formais e superficiais, se inclinam ante a sumária conclusão de que é impossível lutar contra o stalinismo, sem renunciar ao bolchevismo. Como já sabemos, Schlamm vai ainda mais longe: o stalinismo, que é a degeneração do bolchevismo, é também um produto do marxismo; por conseguinte, é impossível lutar contra o stalinismo sem apartar-se das bases do marxismo. Pessoas menos conseqüentes, porém mais numerosas, dizem pelo contrário: “Há que voltar do bolchevismo ao marxismo”. Mas por qual caminho? Para qual marxismo? Antes que o marxismo “fosse à bancarrota” em forma de bolchevismo, já havia se degenerado sob a forma de social-democracia. A consigna “voltar de novo ao marxismo” significa dar um salto sobre a II e a III Internacionais até… a I Internacional! Mas também esta foi derrotada. Resumindo: trata-se de voltar em definitivo… às obras completas de Marx e Engels. Para dar este salto heróico não há necessidade de sair do gabinete de trabalho, nem sequer tirar os chinelos. Porém, como passar tão bruscamente de nossos clássicos (Marx morreu em 1883 e Engels em 1895) às tarefas da nova época, deixando de lado a luta teórica e política de muitas dezenas de anos, luta que compreende também o bolchevismo e a Revolução de Outubro? Nenhum dos que se propõem a renunciar ao bolchevismo como tendência historicamente em “bancarrota”, indicou novos caminhos.

Para eles, tudo se reduz ao simples conselho de estudar O capital. Contra isto não temos nada que objetar. Mas também os bolcheviques estudaram O capital, e não de todo mal. Contudo, isso não impediu a degeneração do Estado Soviético e a mise em scéne dos processo de Moscou. O que fazer então? É verdade, portanto, que o stalinismo representa o produto legítimo do bolchevismo, como crê toda a reação, como afirma o próprio Stalin, como pensam os mencheviques, os anarquistas e alguns doutrinadores de esquerda, que se consideram marxistas? “Sempre o previmos – afirmam – que, tendo começado com a proibição dos diferentes partidos socialistas, com o esmagamento dos anarquistas e com o estabelecimento da ditadura dos bolcheviques nos soviets, a Revolução de Outubro não podia deixar de conduzir à ditadura da burocracia. O stalinismo é, ao mesmo tempo, a continuação e a negação do leninismo”.

 

O bolchevismo é responsável pelo stalinismo

O erro deste raciocínio começa com a identificação tácita do bolchevismo, da Revolução de Outubro e da União Soviética. O processo histórico, que consiste na luta de forças hostis, é substituído pela evolução abstrata do bolchevismo. Contudo, o bolchevismo é apenas uma corrente política. Ainda que estritamente ligada à classe operária, não se identifica com ela. Na URSS, além da classe operária, existem mais de cem milhões de camponeses de diversas nacionalidades; uma herança de opressão, de miséria e de ignorância. O Estado construído pelos bolcheviques reflete não apenas o pensamento e a vontade dos bolcheviques, mas também o nível cultural do país, a composição social da população, a influência do passado bárbaro e do imperialismo mundial não menos bárbaro. Representar o processo da degeneração do Estado soviético como a evolução do bolchevismo puro é ignorar a realidade social, pois considera um único elemento isolado de uma maneira puramente lógica. Basta chamar este erro elementar por seu verdadeiro nome para reduzi-lo a pó.

O bolchevismo jamais se identificou com a Revolução de Outubro nem com o Estado Soviético que dela surgiu. O bolchevismo se considerava como um dos fatores históricos, seu fator “consciente”, fator muito importante, mas não decisivo. Nunca pecamos por um subjetivismo histórico. Víamos o fator decisivo – sobre a base dada pelas forças produtivas – na luta de classes, não apenas em escala nacional, como também internacional.

Quando os bolcheviques faziam concessões às tendências pequeno-burguesas dos camponeses; quando estabeleciam regras estritas para o ingresso no partido; quando depuravam este partido de elementos que lhe eram estranhos; quando proibiam os outros partidos; quando introduziam a NEP; quando cediam as empresas a setores privados em forma de concessões; ou quando firmavam acordos diplomáticos com os governos imperialistas, extraíam deste fato fundamental conclusões que, desde o começo, lhes eram teoricamente claras: a conquista do poder, por muito importante que seja, não converte o partido em soberano do processo histórico.

Certamente, depois de tomar o poder do Estado, o partido tem a possibilidade de influenciar com uma força sem precedentes no desenvolvimento da sociedade, mas, em troca, é submetido a uma ação decuplicada por parte de todos os outros elementos desta sociedade. Pode ser retirado do poder por golpes diretos das forças hostis. Se o ritmo do processo é mais lento ele pode degenerar internamente, mesmo mantendo o poder. É precisamente essa dialética do processo histórico que não compreendem os pensadores sectários que tratam de encontrar na putrefação da burocracia stalinista um argumento definitivo contra o bolchevismo. No fundo estes senhores dizem: “um partido revolucionário é ruim quando não carrega em si mesmo garantias contra sua própria degeneração”.

Enfocado com um critério semelhante, o bolchevismo está evidentemente condenado: não possui nenhum talismã. Mas esse mesmo critério é falso. O pensamento científico exige uma análise concreta: como e por que o partido se decompôs? Até o agora ninguém de fato fez esta análise, fora os bolcheviques. Nem por isso tiveram necessidade de romper com o bolchevismo. Pelo contrário, é no arsenal do bolchevismo onde tem sido encontrado todo o necessário para explicar seu processo. A conclusão a qual chegamos é a seguinte: evidentemente o stalinismo “surgiu” do bolchevismo; mas não surgiu de uma maneira lógica, senão dialética; não como sua afirmação revolucionária, mas como sua negação termidoriana. Que não é a mesma coisa.

 

O prognóstico fundamental do bolchevismo

Contudo, os bolcheviques não tiveram a necessidade de esperar os processos de Moscou para explicar a posteriori as causas da decomposição do partido dirigente da URSS. Faz muito tempo que previram a possibilidade teórica de uma variante semelhante em sua evolução e de antemão se pronunciaram a respeito dela. Recordemos, prognóstico que os bolcheviques fizeram não somente às vésperas da Revolução de Outubro, como também anos antes. O agrupamento fundamental das forças em escala nacional e internacional abre pela primeira vez para ao proletariado de um país tão atrasado como a Rússia a possibilidade de chegar à conquista do poder. Mas esse mesmo agrupamento de forças permite assegurar de antemão que sem a vitória mais ou menos rápida do proletariado dos países adiantados o Estado operário não podia manter-se na Rússia. O regime soviético, abandonado a suas próprias forças, cairá ou degenerará. Mais exatamente: primeiro degenerará e logo cairá rapidamente. Eu tive oportunidade de escrever sobre isso, mais de uma vez, desde 1905. Em minha História da Revolução Russa (apêndice ao último tomo, “Socialismo em um só país”) há uma resenha do que disseram a esse respeito os chefes do bolchevismo desde 1917 até 1923. Tudo se reduz a uma só coisa: sem revolução no Ocidente o bolchevismo será liquidado pela contra-revolução; pela intervenção estrangeira ou por sua combinação. Lênin, em particular, indicou mais de uma vez que a burocratização do regime soviético não é uma questão técnica ou de organização, mas que é o começo de uma possível degeneração social do Estado operário.

No XI Congresso do partido, em março de 1922, Lênin falou do “apoio” que estavam decididos a oferecer à Rússia Soviética durante a época da NEP alguns políticos burgueses e em particular o professor liberal Oustrialov.[6] “Sou pela sustentação do governo soviético na Rússia – disse – mesmo sendo um cadete, um burguês que apoiou a intervenção, porque tem tomado um rumo que o conduzirá ao poder burguês comum”. Lênin preferia a voz cínica do inimigo às “sentimentais mentiras comunistas” e advertiu o partido desse perigo com palavras de áspera sobriedade: “Coisas como as que disse Oustrialov são possíveis. A história conhece transformações de todo tipo; apoiar-se na firmeza da convicção, na lealdade e outras excelentes qualidades morais é uma coisa nada séria em política. Excelentes qualidades morais existem em um número ínfimo de pessoas, mas são as grandes massas que decidem os desenlaces históricos, massas que tratam com pouca benevolência esse escasso número de pessoas, se estas não lhes agradam”. Em uma palavra, o partido não é o único fator da evolução e, em uma grande escala histórica, sequer é o fator decisivo.

“Ocorre que uma nação conquista a outra – continua Lênin no mesmo congresso, o último em que participou  – e isto é muito simples e compreensível a qualquer um. Mas o que acontece com a cultura desses países? Isto já não é tão simples. Se a nação que fez a conquista tem uma cultura superior à nação vencida, aquela lhe impõe sua cultura; mas se ocorre o contrário, a nação vencida impõe a sua à nação conquistadora. Não ocorreu algo semelhante na capital da República Russa? Não ocorreu que 4.700 comunistas (quase toda uma divisão da melhor entre as melhores) se viram submetidos a uma cultura estrangeira?” Isto foi dito no começo de 1922, e não pela primeira vez. A história não é feita por alguns homens – ainda que sejam “os melhores entre os melhores”, e, mais ainda, esses melhores podem descambar para uma cultura “estrangeira”, ou seja, burguesa. Não apenas o Estado Soviético pode afastar-se do caminho do socialismo, como também o partido bolchevique pode, em condições históricas desfavoráveis, perder seu bolchevismo.

Foi com a clara compreensão deste perigo que nasceu a Oposição de Esquerda, definitivamente formada em 1923. Registrando diariamente os sintomas de degeneração, se esforçou para opor ao termidor ameaçador a vontade consciente da vanguarda proletária. Mas esse fator subjetivo resultou insuficiente. As “grandes massas” que, segundo Lênin, decidem os desenlaces da luta estavam cansadas em função das privações próprias do país e por uma espera demasiado prolongada da revolução mundial. Seu estado de ânimo decaiu. A burocracia se impôs. Dominou a vanguarda proletária, pisoteou o marxismo, prostituiu o partido bolchevique. O stalinismo tornou-se vitorioso. Sob a forma de Oposição de Esquerda, o bolchevismo rompeu com a burocracia soviética e com seu Comintern. Tal é a verdadeira marcha do processo.

Certamente, em um sentido formal, o stalinismo surgiu do bolchevismo. Até hoje, a burocracia de Moscou continua chamando-se partido bolchevique. Se utiliza a antiga etiqueta do bolchevismo, o faz simplesmente para enganar melhor as massas. Tanto mais dignos de pena são os teóricos que tomam a casca pelo caroço, a aparência pela realidade. Identificando o stalinismo com o bolchevismo, prestam o melhor serviço aos termidorianos e, por isso, representam um papel manifestamente reacionário.

Com a eliminação de todos os outros partidos da arena política, os interesses e as tendências contraditórias das diversas camadas da população devem, em maior ou menor grau, encontrar sua expressão dentro do partido dirigente. À medida que o centro de gravidade político se deslocava da vanguarda proletária para a burocracia, o partido se modificava, tanto na sua composição social como em sua ideologia. Graças à marcha impetuosa da evolução no curso dos últimos quinze anos, sofreu uma degeneração mais radical que a social-democracia durante meio século. A depuração atual traça entre o stalinismo e o bolchevismo não uma simples linha sangrenta, mas um rio de sangue.

O extermínio de toda uma velha geração bolchevique, de grande parte da geração intermediária que havia participado da guerra civil, e também de uma parte da juventude que havia tomado mais a sério as tradições bolcheviques, demonstra a incompatibilidade não somente da política como também diretamente física entre o bolchevismo e o stalinismo. Como é possível que não se veja isto?

 

Stalinismo e “socialismo de Estado”

Os anarquistas, por sua vez, tratam de ver no stalinismo um produto orgânico não somente do bolchevismo e do marxismo, mas também do “socialismo de Estado” em geral. Eles admitem substituir a patriarcal “federação de comunas livres” de Bakunin pelo conceito mais moderno de federação de sovietes livres.[7] Mas, antes de tudo, opõem-se ao Estado centralizado. Com efeito, um ramo do marxismo “de Estado”, a social-democracia, uma vez chegando ao poder, se converteu em uma agência declarada do capital. Por outro lado surgiu uma nova casta de privilegiados. E, claro, a origem do mal está no Estado. Considerando isto do ponto de vista de um amplo critério histórico, pode-se encontrar um elemento de verdade neste raciocínio. O Estado, enquanto aparelho de opressão, é, incontestavelmente, uma fonte de degeneração política e moral. Como a experiência o demonstra, isto é aplicável também ao Estado operário. Em conseqüência, pode-se dizer que o stalinismo é o produto de uma etapa histórica, em que a sociedade não pôde libertar-se ainda da camisa-de-força do Estado. Mas esta situação não nos dá nenhum elemento que permita avaliar o bolchevismo ou o marxismo, mas apenas caracteriza o nível geral da civilização humana e, antes de tudo, a relação de forças entre o proletariado e a burguesia. Mesmo coincidindo com os anarquistas em que o Estado, mesmo o Estado operário, é gerado pela barbárie da luta de classes e de que a verdadeira história da humanidade começará com a abolição do Estado, coloca-se para nós o seguinte problema: quais são os caminhos e os métodos capazes de conduzir-nos ao objetivo último, a abolição do Estado? A experiência recente mostra que, em todo caso, não são os métodos do anarquismo.

No momento crítico, os chefes da CNT espanhola, a única organização anarquista importante no mundo, se transformaram em ministros da burguesia.[8] Eles explicam sua aberta traição à teoria do anarquismo pela pressão das “circunstâncias excepcionais”. Mas não é este o mesmo argumento que empregaram, em seu tempo, os chefes da social-democracia alemã? Por certo que a guerra civil não é uma circunstância pacífica e nem comum, mas uma circunstância excepcional. Mas é precisamente para essas “circunstâncias excepcionais” que se prepara toda organização revolucionária séria. A experiência espanhola demonstrou, uma vez mais, que se pode “negar” o Estado nos folhetos editados em “circunstâncias normais” e com a permissão do Estado burguês: mas também demonstrou que as condições da revolução não deixam nenhum lugar para a negação do Estado e que, além disso, exigem sua conquista. Não temos a intenção de acusar os anarquistas espanhóis de não haver liquidado o Estado de um só golpe. Um partido revolucionário, mesmo tendo-se apoderado do poder (o que os chefes anarquistas não souberam fazer, apesar do heroísmo dos operários anarquistas), não é, contudo, o dono todo-poderoso da sociedade. Se acusamos tão severamente a teoria anarquista, o fazemos porque, tendo-se considerado apta para um período pacífico, teve que ser abandonada apressadamente, a partir do momento em que apareceram as “circunstâncias excepcionais” da revolução. Antigamente existiam generais – e provavelmente ainda existem – que diziam que não há coisa mais nociva para um exército que a guerra. Os revolucionários que se lamentam de que a revolução acaba com sua doutrina não valem muito mais do que aqueles generais.

Os marxistas e os anarquistas estão plenamente de acordo quanto ao objetivo final, quer dizer, com a liquidação do Estado. O marxismo permanece “estatal” unicamente na medida em que se torna impossível abolir o Estado apenas ignorando a sua existência. A experiência do stalinismo não modifica nada o ensinamento do marxismo, mas a confirma pelo método inverso. Uma doutrina revolucionária que ensina o proletariado a orientar-se corretamente em uma situação determinada e a utilizá-la ativamente não encerra em si – há que entendê-lo bem – a garantia automática da vitória. Mas, pelo contrário, a vitória só é possível graças a essa doutrina. Além disso, é impossível representar esta vitória em forma de um ato único. É preciso considerar o assunto tendo como perspectiva uma longa época. O primeiro Estado operário, descansando sobre uma base econômica pouco desenvolvida e rodeado por um anel imperialista, transformou-se em guardião do stalinismo. Mas o verdadeiro bolchevismo declarou uma guerra sem trégua a esse guardião.

Para manter-se, o stalinismo está obrigado a levar agora abertamente uma “guerra civil” contra o bolchevismo, qualificado de “trotskismo”, não somente na URSS, como também na Espanha. O velho partido bolchevique está morto, mas o bolchevismo por todas as partes levanta a cabeça.

Buscar a origem do stalinismo no bolchevismo ou no marxismo é exatamente a mesma coisa, num sentido mais geral, que querer buscar a origem da contra-revolução na revolução. Sobre este esquema se modelou sempre o pensamento dos liberais-conservadores e, por trás deles, o dos reformistas.

Por causa da estrutura da sociedade baseada em classes, as revoluções sempre engendraram contra-revoluções. Isto não demonstra – pergunta o pensador – que o método revolucionário encerra algum vício interno? Contudo, até agora, nem os reformistas nem os liberais inventaram métodos “mais econômicos”.

Mas se não é fácil interpretar todo um processo histórico ainda vivo, não é, pelo contrário, nada difícil interpretar de maneira racionalista a sucessão de suas etapas, fazendo proceder logicamente o stalinismo do “socialismo de Estado”, o fascismo do marxismo, a reação da revolução. Em uma palavra: a antítese da tese. Neste domínio como em tantos outros, o pensamento anarquista torna-se prisioneiro do racionalismo liberal. O verdadeiro pensamento revolucionário é impossível sem a dialética.

Os argumentos dos racionalistas tomam às vezes, pelo menos exteriormente, um caráter mais concreto. Para eles o stalinismo não procede do bolchevismo em si, mas de seus pecados políticos.[9] Os bolcheviques, dizem certos espartaquistas alemães, assim como Gorter, Pannekoek etc. substituíram a ditadura do partido pela da burocracia.[10] Os bolcheviques aniquilaram todos os partidos, exceto o seu; Stalin estrangulou o partido bolchevique em interesse da camarilha bonapartista. Os bolcheviques chegaram a um acordo com a burguesia; Stalin converteu-se em aliado e esteio da burguesia. Os bolcheviques reconheceram a necessidade de participar nos velhos sindicatos e no parlamento burguês; Stalin fez amizade com a burocracia sindical e com a democracia burguesa. Desta maneira pode-se seguir raciocinando o tempo que se queira. Apesar do efeito que estes raciocínios possam produzir exteriormente, são absolutamente vazios.

O proletariado só pode chegar ao poder por intermédio de sua vanguarda. A própria necessidade de um poder estatal deriva do insuficiente nível cultural das massas e de sua heterogeneidade. A tendência das massas para sua liberação solidifica-se na vanguarda revolucionária organizada em partido. Sem a confiança da classe em sua vanguarda e sem o apoio desta por aquela, nem sequer se pode falar de conquista do poder. É neste sentido que a revolução proletária e a ditadura constituem o objetivo de toda a classe, porém sob a direção de sua vanguarda. Os sovietes são a forma organizada da aliança da vanguarda com a classe.

O conteúdo revolucionário desta aliança só pode estar dado pelo partido. Isto está demonstrado pela experiência positiva da Revolução de Outubro e pela experiência negativa de outros países (Alemanha, Áustria e ultimamente Espanha). Ninguém demonstrou na prática, nem sequer tratou de explicar em forma precisa no papel, como o proletariado pode apoderar-se do poder sem a direção política de um partido que sabe o que quer. Se esse partido submete os sovietes à sua ação política, este fato muda tão pouco o sistema soviético como uma maioria conservadora mudaria o sistema parlamentar britânico. Quanto à proibição dos demais partidos soviéticos, esta não deriva de nenhuma “teoria” bolchevique, mas foi uma medida de defesa da ditadura num país atrasado, esgotado e rodeado de inimigos. Os mesmos bolcheviques compreenderam desde o começo que esta medida, completada com a proibição de frações no interior do próprio partido dirigente, encerrava um grande perigo. No entanto, a fonte do perigo não estava na doutrina ou na tática, mas na debilidade material da ditadura, nas dificuldades da situação interna e externa.

Se a revolução tivesse triunfado também na Alemanha, haveria desaparecido a necessidade de proibir os outros partidos soviéticos. É absolutamente indiscutível que a dominação de um só partido serviu juridicamente como ponto de partida para o regime totalitário stalinista. Mas a causa de tal evolução não está no bolchevismo, nem tampouco na interdição dos outros partidos, como medida militar temporária, mas na série de derrotas que sofreu o proletariado da Europa e da Ásia.

Sucedeu o mesmo na luta contra o anarquismo. Na época heróica da revolução, os bolcheviques marcharam junto com os anarquistas autenticamente revolucionários. Muitos deles passaram para as fileiras do partido. Mais de uma vez, o autor destas linhas examinou com Lênin a possibilidade de entregar aos anarquistas alguns territórios para que ali aplicassem, com o consentimento da população, suas experiências de supressão imediata do Estado.

Mas as condições da guerra civil, do bloqueio e da fome não permitiram a aplicação de tais planos. E a insurreição de Kronstadt? Há que se compreender que o governo revolucionário não podia entregar aos marinheiros insurreitos a fortaleza que defendia a capital, pelo simples fato de que à rebelião reacionária dos soldados camponeses se uniram alguns duvidosos anarquistas. A análise histórica concreta dos acontecimentos não deixa nenhum lugar para lendas que a ignorância e o sentimentalismo criaram em torno de Kronstadt, Makhno e outros episódios da revolução.

Resta apenas o fato de que, desde o início, os bolcheviques aplicaram não somente a convicção, mas também coerção, às vezes de uma forma bastante rude. É indubitável também que a burocracia surgida da revolução monopolizou em suas mãos o sistema de coerção para seus próprios fins. Cada etapa da evolução, mesmo quando elas são tão catastróficas, como a revolução e a contra-revolução, se origina na etapa precedente, tem nela suas raízes e conserva alguns de seus traços.

Os liberais, inclusive o casal Webb, sempre afirmaram que a ditadura bolchevique representa somente uma nova edição do czarismo.[11] Para isso fecham os olhos ante detalhes tais como a abolição da monarquia e da nobreza, a entrega da terra aos camponeses, a expropriação do capital, a introdução da economia planificada, a educação laica etc. Também o pensamento liberal-anarquista fecha os olhos ante o fato de que a revolução bolchevique, com todas as medidas de repressão, significava a subversão das relações sociais no interesse das massas, enquanto o golpe de Estado termidoriano de Stalin leva em si o reagrupamento da sociedade soviética em benefício de uma minoria privilegiada. Está claro que na identificação do stalinismo com o bolchevismo não existe nem vestígio de critério socialista.

 

Problemas teóricos

Um dos principais traços do bolchevismo é sua posição inflexível frente aos problemas doutrinários. Os 27 tomos de Lênin permanecerão sempre como exemplo de uma atitude bastante escrupulosa quanto à teoria. O bolchevismo jamais teria cumprido sua missão histórica se carecesse desta qualidade fundamental. O stalinismo grosseiro, ignorante e absolutamente empírico representa, sob este mesmo aspecto, o inverso do bolchevismo.

Há mais de 10 anos a Oposição declarava em sua plataforma: “Depois da morte de Lênin criou-se toda uma série de novas ‘teorias’ com o único objetivo de justificar ‘teoricamente’ o desvio do grupo stalinista do caminho da revolução proletária internacional”. O socialista americano Liston Oak, que participou de perto da revolução espanhola, escreveu há pouco tempo: “De fato, os revisionistas mais extremados de Marx e Lênin são agora os stalinistas. O próprio Bernstein não ousou fazer nem a metade do caminho que fez Stalin na revisão de Marx”. Está absolutamente certo. É necessário acrescentar apenas que em Bernstein havia realmente necessidades teóricas: tratava-se conscientemente de estabelecer uma harmonia entre a prática reformista da social-democracia e seu programa. A burocracia stalinista, além de não ter nada em comum com o marxismo, é também estranha a toda doutrina, programa ou sistema. Sua “ideologia” está impregnada de um subjetivismo absolutamente policial; sua prática, de um empirismo da mais pura violência. No fundo, os interesses da casta dos usurpadores é hostil à teoria: não pode prestar contas a si mesma, nem a ninguém, de seu papel social. Stalin não revisa Marx e Lênin com a pena dos teóricos, mas com as botas da GPU.

 

Problemas morais

Os fanfarrões insignificantes, de quem os bolcheviques arrancaram as máscaras, têm o costume de lamentar-se da “amoralidade” do bolchevismo. No ambiente pequeno-burguês de intelectuais, democratas, “socialistas”, literatos, parlamentares e outras pessoas da mesma laia, existem valores convencionais ou uma linguagem convencional para encobrir a ausência de verdadeiros valores. Esta ampla e multicolorida sociedade onde reina uma cumplicidade recíproca – “viva e deixe os outros viverem!” – não suporta em sua pele sensível o contato do bisturi marxista.

Os teóricos que oscilam entre os dois campos, os escritores e os moralistas, pensavam e pensam que os bolcheviques exageram com má intenção as divergências, são incapazes de uma colaboração “leal” e que por suas intrigas romperam a unidade do movimento operário. O centrista sensível e susceptível acredita, antes de tudo, que os bolcheviques “caluniam”, porque levam seu pensamento às últimas conseqüências, coisa que eles são incapazes de fazer. Mas somente com esta preciosa qualidade de ser intolerante com tudo que é híbrido e evasivo se pode educar um partido revolucionário para que as “circunstâncias excepcionais” não o surpreendam.

A moral de todo partido deriva, no fundo, dos interesses históricos que representa. A moral do bolchevismo, que contém a devoção, o desinteresse, o valor, o desprezo por todo o falso e vão – as melhores qualidades da natureza humana! – deriva de sua intransigência revolucionária posta a serviço dos oprimidos. Neste ponto, a burocracia stalinista também  imita as palavras e os gestos do bolchevismo. Mas, quando a “intransigência” e a “inflexibilidade” se cumpre por meio de um aparato policial que está a serviço de uma minoria privilegiada, essas qualidades se transformam em uma fonte de desmoralização e de gangsterismo. Inspiram somente desprezo, estes senhores que identificam o heroísmo revolucionário dos bolcheviques com o cinismo burocrático dos termidorianos.

Ainda hoje, apesar dos dramáticos acontecimentos do último período, o filisteu comum continua acreditando que a luta entre bolchevismo (trotskismo) e o stalinismo é um conflito de ambições pessoais ou, no melhor dos casos, uma luta entre duas “nuances” do bolchevismo. A expressão mais crua deste ponto de vista é a de Norman Thomas, leader do partido socialista americano. “Não há razão para acreditar – escreve no Socialist Review de setembro de 1937, página 6 – que, se Trotski tivesse estado no lugar de Stalin, haveria terminado as intrigas, o complô e o terror na Rússia”. E este homem se acredita marxista!

Com o mesmo fundamento se poderia dizer: “Não há razão para acreditar que se em lugar de Pio XI se encontrasse no trono de Roma, Norman I, a Igreja Católica se transformaria em um reduto socialista”. Thomas não compreende que não se trata de uma briga entre Stalin e Trotski, mas de um antagonismo entre a burocracia e o proletariado. Por certo que na URSS a camada dirigente está obrigada a adaptar-se à herança revolucionária que ainda não está completamente liquidada, preparando ao mesmo tempo uma mudança no regime social por meio de uma guerra civil declarada (“depuração” sangrenta, extermínio em massa dos descontentes). Mas na Espanha a camarilha stalinista se apresenta a partir de agora abertamente como o refúgio da ordem burguesa contra o socialismo. A luta contra a burocracia bonapartista se transforma, ante nossos olhos, em luta de classes: dois mundos, dois programas, duas morais. Se Thomas pensa que a vitória do proletariado socialista sobre a casta abjeta dos opressores não regenerará política e moralmente o regime soviético, demonstra como ele, apesar de todas as suas reservas, suas tergiversações e seus piedosos suspiros, se encontra muito mais próximo da burocracia stalinista que dos operários revolucionários. De mesma forma que quem denuncia o “amoralismo” dos bolcheviques, Thomas simplesmente não consegue alcançar a moral revolucionária.

 

As tradições do bolchevismo e a IV Internacional

Para os “esquerdistas” que tratam de “voltar” ao marxismo passando ao largo do bolchevismo, tudo se reduz a alguns remédios isolados: boicotar os antigos sindicatos, boicotar o parlamento, criar “verdadeiros” sovietes. Tudo isso poderia parecer extraordinariamente profundo na febre dos primeiros dias que se seguiram à guerra. Mas hoje, à luz da experiência sofrida, estas “doenças infantis” perderam todo o interesse mesmo em seu caráter de curiosidade. Os holandeses Gorter e Pannekoek, os “espartaquistas” alemães e os bordiguistas italianos manifestaram sua independência com respeito ao bolchevismo, opondo unicamente um dos seus traços, artificialmente aumentado[12] aos outros. Dessas tendências de “esquerda” não resta nada, prática nem teoricamente: prova indireta, mas importante, de que, para nossa época o bolchevismo é a única forma de marxismo.

O partido bolchevique demonstrou na ação a combinação de suprema audácia revolucionária com o realismo político. Pela primeira vez estabeleceu entre a vanguarda e a classe a única relação capaz de assegurar a vitória. A experiência demonstrou que a união do proletariado com as massas oprimidas da pequena burguesia das cidades e dos campos é possível somente com a derrota política dos partidos tradicionais da pequena burguesia. O partido bolchevique ensinou ao mundo inteiro como se realiza a insurreição armada e a tomada do poder. Os que opõem uma abstração de sovietes à ditadura do partido deveriam compreender que apenas graças à direção dos bolcheviques os sovietes saíram do pântano reformista ao papel de órgãos do Estado proletário. Na guerra civil, o partido bolchevique realizou uma justa combinação de arte militar com a política marxista. Ainda que a burocracia stalinista consiga arruinar as bases econômicas da nova sociedade, a experiência da economia planificada, realizada sob a direção do partido bolchevique, ficará para sempre na história como uma escola superior para toda a humanidade. Unicamente não vêem tudo isto os sectários, que, ofendidos pelos golpes recebidos, voltaram as costas ao processo histórico.

Mas isto não é tudo. O partido bolchevique só pôde fazer um trabalho “prático” tão grandioso apenas porque cada um dos seus passos era iluminado pela luz da teoria. O bolchevismo não a criou: foi legada pelo marxismo. Mas o marxismo é a teoria do movimento e não do repouso, e somente ações realizadas em uma escala histórica grandiosa podiam enriquecer a teoria. O bolchevismo trouxe uma contribuição preciosa ao marxismo: a análise da época imperialista como época de guerras e revoluções; da democracia burguesa no período da decadência do capitalismo; da relação entre a greve geral e a insurreição; do papel do partido, dos sovietes e dos sindicatos na época da revolução proletária; da teoria do Estado soviético; da economia de transição; do fascismo e do bonapartismo à decomposição capitalista; enfim, por sua análise da degeneração do próprio partido bolchevique e do Estado soviético. Que se nos apresente outra tendência que tenha acrescentado algo de essencial às conclusões e às generalizações do bolchevismo. Vandervelde, De Brouckere, Hilferding, Otto Bauer, Leon Blum, Zisomsky etc., sem falar de Attlee e de Norman Thomas, vivem teórica e politicamente das relíquias do passado.[13] A degeneração do Comintern expressa-se de forma mais brutal no fato de que caiu teoricamente ao nível da II Internacional. Os grupos intermediários de toda espécie (lndependent Labour Party da Inglaterra, o POUM e seus semelhantes) voltam a adaptar semanalmente, para suas necessidades do momento, as migalhas de Marx e de Lênin. Os operários não aprenderão nada com estas pessoas.

Somente os construtores da IV Internacional, ao adotar as tradições de Lênin e Marx, tomaram uma atitude séria em relação à teoria. Que os filisteus zombem porque vinte anos depois da Revolução de Outubro, os revolucionários se vêem reduzidos à tarefa de uma modesta preparação de propaganda.

Neste aspecto como em outros, o grande capital é muito mais perspicaz que os filisteus pequeno-burgueses que se consideram “socialistas” ou “comunistas”. Não é por nada que a questão da IV Internacional não desaparece das colunas da imprensa mundial. A imperiosa necessidade histórica de uma direção revolucionária assegura à IV internacional ritmos excepcionalmente rápidos em seu desenvolvimento. O fato de não ter se formado fora do grande caminho da história, mas de ter surgido organicamente do bolchevismo, é a garantia mais importante de seus êxitos futuros.

Leon Trotski, 29 de agosto de 1937.

 

 

 


[1] Revisado de: http://www.marxists.org/espanol/trotsky/1930s/bolchev.htm, cotejado com tradução disponível em http://www.pco.org.br/biblioteca/partido/stalinismo.htm e principalmente com o mesmo texto publicado no livro Natureza do Estado soviético, Leon Trotsky, Porto, Portugal, s/d, p. 71-98. Revisado por G.Dantas. as Notas do Tradutor aqui presentes constam da tradução portuguesa de João F. Viegas acima citada.

[2] O bureau de Londres reunia pequenas organizações socialistas que oscilavam entre o reformismo e o marxismo revolucionário. A mais importante era o Independent Labour Party. Mais detalhadamente: o “bureau internacional para a unificação socialista revolucionária”, dito bureau de Londres, era um organismo de ligação entre partidos e agrupamentos provenientes da social-democracia ou do estalinismo como o S. A. P. (alemão), o I. L. P. (britânico); o P. O. U. M. (espanhol) e mais tarde o R. S. D. A. P. (holandês), que tinham em comum uma hostilidade declarada à construção – e não somente proclamação – de uma IV Internacional. O bureau de Londres de que Femer Brockway era o secretário, era a sombra negra de Trotski que vê aí a frente única dos “centristas” e o refúgio dos “pacifistas” (N. Do T.).

[3] Rudolph Hilferding (1877-1941): dirigente social-democrata alemão antes da I Guerra Mundial, foi pacifista durante a mesma. Foi ministro da Fazenda nos governos burgueses de 1923 e 1928. Morreu num campo de concentração nazista durante a II Guerra Mundial.

[4] Willi Schlamm (nascido em 1904): um dos fundadores da Oposição de Direita austríaca. Com a chegada de Hitler ao poder, publicou vários artigos importantes de Trotsky na Die Neue Weltbuehne, revista que dirigia. Posteriormente, se radicou nos Estados Unidos e foi editor da rede de publicações Henry Luce.

[5] Socialismo anterior a março de 1848: refere-se ao socialismo utópico, refutado e repudiado por Marx e Engels quando iniciaram a construção do movimento revolucionário.

[6] N. V. Oustrialov: membro do Partido Democrata Constitucional (Cadete), era um liberal, partidário de uma monarquia constitucional ou de uma república na Rússia. O Cadete era um partido de latifundiários, burgueses médios e intelectuais burgueses progressistas. Oustrialov se opôs à revolução bolchevique, mas logo trabalhou para o governo soviético, acreditando que este seria obrigado a restaurar o capitalismo. Preso em 1937, foi acusado de realizar atividades anti-soviéticas e desapareceu.

[7] Mijail Bakunin (1814-1876): contemporâneo de Marx e membro da I Internacional, foi o fundador do anarquismo. Sua teoria propugnava a abolição imediata do Estado e a criação de uma federação de comunidades livres.

[8] CNT (Confederação Nacional do Trabalho): federação anarco-sindicalista espanhola.

[9] Um dos representantes destacados desta corrente de pensamento é o francês B. Souvarine, autor de uma biografia de Stalin. O lado fático e documental de sua obra é produto de uma investigação prolongada e séria. Porém, a filosofia histórica deste autor brilha por sua vulgaridade. Busca a explicação dos contratempos históricos posteriores nas falhas intrínsecas do bolchevismo. Para ele não existem as pressões do verdadeiro processo histórico sobre o bolchevismo. Taine, com sua teoria do “entorno”, se encontra mais próximo de Marx que Souvarine (Nota de LT). Hippolyte Taine (1929-1893) – filósofo francês cujas teorias deterministas, segundo as quais o homem é produto da herança, do condicionamento histórico e do meio social, se converteram na base da escola naturalista.

[10] Hermann Gorter (1828-1927) e Anton Pannekoek (1873-1960): escritores da esquerda social-democrata holandesa. Durante a I Guerra Mundial foram pacifistas e internacionalistas e se vincularam à esquerda de Zimmerwald. Ingressaram no PC holandês em 1918, mas se opuseram à participação dos comunistas nos sindicatos e no parlamento. Criticados por seu ultra-esquerdismo, se separaram do PC em 1921. No caso dos espartaquistas, os primeiros deles tomaram o nome de Partido Comunista alemão em 1919. Posteriormente, distintas seitas oportunistas e ultra-esquerdistas da Alemanha e outros países utilizaram esse nome. Trotski se refere, aqui, a estas últimas.

[11] Sydney (1859-1947) e Beatrice (1858-1943) Webb: socialistas fabianos ingleses e admiradores da burocracia stalinista.

[12] Bordiguistas italianos: grupo ultra-esquerdista dirigido por Amadeo Bordiga (1889-1970), expulso do PC italiano acusado de ser “trotskista”, em 1929. Os trotskistas trataram de trabalhar com os bordiguistas, porém não puderam devido ao sectarismo destes últimos: por exemplo, se opunham à frente única por razões principistas.

[13] Emile Vandervelde (1866-1938): dirigente do Partido Trabalhista belga e presidente da Segunda Internacional, 1929-36. Foi ministro durante a Primeira Guerra Mundial e firmou o tratado de Versalles, em nome da Bélgica. Louis de Brouckere: dirigente do trabalhismo belga e belicista durante a Primeira Guerra Mundial. Presidiu a Segunda Internacional em 1937-39. Clement Attlee (1883-1967): dirigente do Partido Trabalhista inglês a partir de 1935, ocupou postos no gabinete de Winston Churchill em 1940-45. Quando o trabalhismo ganhou as eleições de 1945, Attlee foi nomeado primeiro-ministro e ocupou esse cargo até 1951.

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